16/06/2014 - Por Reflexões

Aos Não-Héteros

Oi, A.

Minha primeira vontade quando acabei de ler seu texto foi de te abraçar e dizer que sei exatamente como você se sente ao se descobrir panssexual. Queria explicar que estou respondendo você com uma carta aberta, assim todo mundo que já se sentiu, ou se sente, assim pode ler, se identificar e quem sabe sentir um pouco de alívio em saber que não está sozinhx.

Tento me imaginar com a sua idade e a sua coragem e capacidade de auto-conhecimento, mas é difícil. Me parecia que todas as pessoas do mundo eram bem resolvidas, menos eu, com todos meus sentimentos conflitantes sobre sexualidade e romance. Não entendia porque não me atraia por garotos como minhas amigas, e a heterossexualidade, de alguma forma, também não se encaixava para mim.

A verdade é que eu custei a aprender que cada um tem o seu próprio ritmo. Uns precisam se distanciar durante um tempo para ver as coisas com clareza, e pensar e pensar e pensar. Outros precisam de um empurrão, um choque de realidade – seja ele um primeiro amor, mudar de cidade, entrar na faculdade. É preciso ir testando as águas e sair da zona de conforto, de forma que o seu limite se amplie e você aprenda a se sentir cada vez mais a vontade com você mesma.

A vida vai te dando munição pra lidar com as opiniões alheias, sabe? Você começa a ler sobre algo, devagarinho aquilo vai se tornando um pensamento concreto na sua cabeça, até que você se sente pronta pra atirar a primeira pedra. Te garanto que discutir com alguém que não quer te ouvir vai gerar grandes frustrações e você vai se sentir confusa e desequilibrada – eu mesma já cheguei a duvidar das minhas próprias convicções -, mas com o tempo você aprende a escolher suas batalhas.

Ninguém precisa ter resposta pra tudo também. Estruturamos argumentos com a intenção de derrotar alguém, quando na verdade, ninguém ganha. O importante é expor as suas ideias, deixar claro aquilo que você pensa e porque você pensa, e não necessariamente mudar a opinião de uma pessoa sobre algo que ela julga ser certo ou errado.

Não tenha medo de expressar aquilo que você sente. Muito menos pra você mesma. Se você não confia nos seus amigos, escreva pra você mesma. Deixe suas ideias amadurecerem dentro de você mesma e aos poucos vá abrindo elas para os outros. Se tem uma coisa que eu aprendi, é que não tem hora certa pra dizer nada. Nunca estamos prontxs, segurxs ou confiantes o suficiente. Mas eu gosto de pensar que é como um band-aid, conto até três e falo. Quanto mais vezes você tirar o band-aid, normalmente você para de sentir tanta dor.

Então, obrigada você por confiar em nós. Pode nos procurar sempre que precisar.

Beijos, Equipe NAQ.

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