24/07/2014 - Por Reflexões

Cativeiro

Essa semana me deparei com um texto de Tara Isabella Burton para o portal Salon.com, denominado “Os perigos de viajar sendo mulher”. A identificação foi instantânea. De “A viagem de Chihiro” a “Na Natureza Selvagem”, grande parte dos filmes, livros, ídolos e músicas que influenciaram minha infância e adolescência envolvem uma grande aventura, o desbravamento do mundo. Isso criou em mim um grande anseio por vivenciar uma experiência semelhante, no entanto sempre me deparei com uma grande limitação: ser mulher.

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Forte. Pode fazer o que quiser. Pode ir aonde quiser.”

Aos 14 anos, já havia escrito o roteiro do mochilão dos sonhos. Meus pais, um tanto quanto cautelosos, já me diziam “Filha, você é menina, é perigoso viajar sozinha para estes lugares”. Internalizei essa mensagem, porém, aos 15 anos, embarquei em meu primeiro intercâmbio para aprimorar a língua inglesa, acompanhada de uma de minhas melhores amigas.

Os primeiros dias em Manchester podem ser resumidos pela palavra “perrengue”: ninguém foi nos buscar no aeroporto, nossa host family sequer fazia ideia de que éramos meninas brasileiras e fomos alocadas em um porão. Bom, até ai, era puramente aventura. Entretanto, em nosso primeiro jantar, fomos recebidas por um intercambista da Arábia Saudita, que deveria ter seus 25 anos de idade, e a primeira coisa dita foi: “Aaaaah, brasileiras…Vocês dançam peladas né?”. Os olhares não mentiam o quanto estávamos sendo hipersexualizadas naquele momento e ainda por um homem que dividia a mesma casa que nós.

Medo foi o que sentimos: medo de que ele invadisse nosso espaço durante a noite, nosso corpo. Nos dois dias que ficamos nessa casa, fizemos uma grande barreira na porta de nosso quarto, que não possuía tranca: poltrona, malas, sapatos, sacolas, todos empilhados. Carinhosamente, o quarto foi apelidado como “Cativeiro”.

Gradualmente, a mensagem de meus pais, o medo e o imperativo de não ser estuprada foram internalizados em minha mente. Não somente no caso de viagens, mas em todos os dias de minha vida. Cada mulher já carrega em si seu próprio cativeiro.


Mesmo com todo o medo, não troco por nada as viagens que fiz, e ainda planejo fazer outras! A luta contra o cativeiro é constante, mas o mundo é enorme e ser mulher não devia me impedir de explorá-lo inteiro.

Então, como dica, para quem quiser lutar contra o medo e se aventurar, costumo usar o Booking ou o Airbnb  pra encontrar locais pra ficar agora (e olho bem as recomendações)! E voos costumo pegar do site da Decolar.

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