30/06/2014 - Por Reflexões

Considerações de quem abandonou a monogamia

Sempre que junta uma turma de amigos, a conversa inevitavelmente repousa sobre as relações amorosas, independentemente do estado civil dos conversadores. Dentre as coisas que ouço, o que antes me parecia muito normal, hoje me arrepia de horror.

– Aí o cara parou de ficar comigo porque disse que não suportava a ideia de que eu também ficasse com outros caras.
– Mas poxa, vocês estão namorando?
– Não, só ficando mesmo.

– Dos meus amigos que são casados, a maioria tem um celular separado, do qual a esposa nem desconfia, pra marcar encontros com outras mulheres.
– Mas pra que casou então, se não queria assumir a fidelidade?
– Ah, queria sim, mas ninguém é de ferro, né.

– Eu tenho a senha do email/Facebook/celular dele e ele tem do meu também. A gente não esconde nada um do outro.
– Mas a palavra e a confiança não bastam?
– Bom… quem não deve, não teme.

Fico imaginando por que as pessoas assumem relações com as quais não são contentes. Eu já tive namoros monogâmicos antes, mas quando me sentia infeliz, me parecia natural mudar o estado das coisas. Por que eu iria me manter numa situação desconfortável, ou ainda, sujeitar quem eu amo a isso?

Quando um casal decide pelo namoro ou casamento, a fidelidade amorosa e sexual é um voto compulsório. Mas pergunto a todo mundo que já se relacionou assim: será que a gente acredita mesmo que nunca mais vai se sentir atraído por outra pessoa? Que nunca mais vai se apaixonar? E se não, por que basear uma relação numa vida incompleta de desejos e tentações?

 

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Percebi com meu parceiro que uma vida de mentiras e rancor não era a gente queria. Não que a monogamia evolua necessariamente pra isso, mas com metade dos casamentos resultando em divórcio e as taxas enormes de adultério, não botamos muita fé no esquema. Afinal de contas, pretendemos dividir nossas vidas. Quero que ele seja feliz e que se sinta completo, assim como eu. E acima de tudo, não consigo mentir pra mim mesma: o fato de eu gostar, desejar ou amar outras pessoas não elimina e nem prejudica o que sinto por ele. Dizer que eu ficaria satisfeita negando todos os meus afetos é uma grande mentira. Posso me relacionar com duas, três, quatro pessoas diferentes ao mesmo tempo e todas essas relações terão seu tempero, seu elemento especial. Terão coisas em comum, como carinho, respeito, sexo, admiração. Mas são únicas em suas particularidades. Como diz Samantha em Her, “A heart is not a box that you fill up, it expands the more you love”. [O coração não é uma caixa que se enche, ele se expande quanto mais você ama]

Por isso esses relatos que ouço nas rodas de amigos me assustam tanto: eles são retratos de relações pautadas em negação, mentiras, desconfiança e castração. De um modelo doentio criado por uma sociedade que repudia quem faz diferente: É só falar que você é poliamor, que tem uma relação aberta ou qualquer outro acordo não monogâmico pra chover gente falando que você tá amando da maneira errada, que quando você encontrar o amor verdadeiro, isso tudo vai pela janela. Porque amar mesmo é abrir mão de você pelo outro, não deixar as pessoas livres.

Penso que independentemente do modelo de relação (embora eu considere a problematização e a visão crítica necessárias), precisamos perguntar, a nós mesmos e a nossos parceiros: estamos felizes? Estamos sendo íntegros? Confiamos um no outro? Não podemos ter medo de explorar diferentes jeitos de enxergar a vida e de dividi-la com quem amamos.

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