13/04/2015 - Por Reflexões

Coragem e Bondade

Como muitas meninas que cresceram com os filmes da Disney, tenho que admitir que a Cinderela nunca foi uma das minhas princesas favoritas. Perto da minha verdadeira favorita, a maravilhosa Mulan, ir ao baile e casar com o príncipe parecia um final muito banal e simples. Considerando ainda a aparência mais que clássica da Cinderela, foi muito fácil, com o passar dos anos, jogá-la para baixo do tapete, junto com outras princesas na categoria ‘Princesinha chata do Patriarcado’.

Porém, com o relançamento do filme, muitos textos e questões voltaram a aparecer sobre essa personagem, e uma série de tweets realmente me tocaram. Aproveitando para retomar a minha infância e inspirada pelas críticas positivas, fui ver o filme e tirar minhas próprias conclusões.

Primeira coisa, vou admitir para todo mundo: eu quero aquele vestido azul, e quero ir no baile e dançar com o Robb Stark príncipe. Não é a toa que essa história é clássica – é mágica e inspiradora e me ajudou a transformar a imagem que eu sempre tive da Cinderela.

Aqui seguem alguns spoilers do filme, mas nada que surpreenda qualquer pessoa que conheça minimamente a história!

O que o tweet que eu citei acima diz e ficou absurdamente claro no filme, o que muitas pessoas chamam de “esperar pelo príncipe”, para a Cinderela significava “sobreviver”. A coitada da menina é uma pessoa ótima e absurdamente bondosa, que não mereceu os desastres da sua vida (uma menina que estava sentada do meu lado chorou horrores com a morte da mãe da Cinderela e eu não posso culpá-la). Ela é uma vítima de abuso, e dizer que “ela não devia ter deixado a madrasta tratar ela assim” é ignorar a maneira como o abuso funciona, e não entender o que é viver em constante medo.

Uma das cenas que eu achei mais reveladoras é uma que a Cinderela diz que “não é tão ruim. Tenho certeza que outros sofrem mais que eu”, algo que eu cansei de ouvir em relatos de relacionamentos abusivos nos anos em que administro o Não Aguento Quando.

Mais do que sobreviver anos de abuso, a Cinderela não deixa que eles mudem quem ela é – ela se mantém gentil e bondosa. Ela escolhe, ativamente, todos os dias, não deixar que aquela situação a destrua, não continuar o ciclo de abuso, e encontra uma maneira de ser feliz e estar em paz consigo mesma, sem deixar que tudo isso defina quem ela é.

Nesse contexto, encontrar o amor – optar por ir ao baile, mesmo depois de tudo isso, mesmo quando a madrasta diz não – não é um final simples ou uma atitude passiva. Ser amada por quem você realmente é, para um sobrevivente de abuso, é uma coisa incrivelmente maravilhosa e se deixar amar, uma atitude incrivelmente corajosa.

O filme repete, a exaustão, que o que precisamos é “ter coragem e ser gentil”. Pois bem, para aquela menina que chorou horrores com as tristezas da vida da Cinderela, ver ela seguir esse conselho e, no final, conseguir toda a felicidade que merece, é uma lição que, creio eu, faz o filme valer a pena.

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