Coragem Moral

Eu acredito que coragem vem de diversas formas. Quando ouvimos falar de coragem, logo pensamos em estrondosos atos de heroísmo físico – notícias em caixa alta sobre adolescente que salta em rio para salvar filhote de gato, bombeiro que invade prédio em chamas para resgatar criança indefesa, mãe que se joga na frente de trem para salvar filho, etc.  Nós aplaudimos esses eventos, curtirmos seus feitos no facebook, tuitamos, reblogamos, e tudo mais que essa maravilhosa rede do mundo virtual pode oferecer. Mas existe outro tipo de coragem que vive às sombras do nosso reconhecimento. Uma espécie de bravura subestimada, mas não menos heroica do que o anterior. Eu gosto de chamá-la de coragem moral.

Coragem moral é aquela que aparece em agradáveis conversas com amigos quando, de súbito um deles diz:

– Nossa aquela menina se veste feito puta

– Aquele cara é legal, mas é viado

(ou qualquer outro comentário ridiculamente ofensivo).

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E ai entra o nosso debate interno: como chamar a atenção do indivíduo que está vomitando estereótipos de gênero sem transformar o clima aprazível em uma acalorada discussão ideológica? Bom, queridxs, eu até hoje, infelizmente, não descobri. A verdade é que nós temos duas opções: uma é dar um risinho sem graça e fingir que não ouviu a outra é abordar o colega e tentar explicar que não é legal falar essas coisas.

Eu tenho que admitir que muitas vezes já recorri à primeira opção. Engoli minha voz dizendo para mim mesma que se eu expressasse meu descontentamento não ia mudar nada, aquilo ia virar uma batalha de egos sem fim. Ou que eu estava cansada de explicar e que se a pessoa quisesse aprender sobre feminismo era só dar uma rápida consultada na internet. Ou que a pessoa era burra e pronto, não merecia meu descarte de saliva.

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Mas é ai que entra a coragem moral. É aquele comichão que diz que se eu não falar sobre aquilo que eu acredito, se eu não compartilhar minhas ideias e meus valores, eles vão morrer comigo. Ao invés de minha voz agir como arma contra a discriminação, meu silêncio acaba legitimando a manutenção do status quo. É muito fácil conversar com pessoas que compartilham das mesmas opiniões que eu ou recorrer apenas ao ativismo virtual que me protege por trás do véu do anonimato e do distanciamento físico. Mas se eu me calo no mundo offline eu acabo sendo condizente com a perpetuação daquilo que eu luto para combater.

Quero deixar bem claro que isso é uma linha de pensamento muito pessoal. Não quero pregar aqui que ninguém saia numa missão de converter todos seus conhecidos ou que alguém é mais feminista que outros por ter mais facilidade para se expressar nessas reuniões sociais. Eu só quero dizer que a voz de cada um é a maior arma que temos a nosso favor e que seria muitíssimo enriquecedor se todos nós sentíssemos confortáveis para expor o que pensamos mesmo quando estamos com pessoas que não partilham nossas ideias. É por meio do diálogo aberto que nós não só moldamos a nós mesmos mas como também tocamos aqueles que estão a nossa volta. Plantamos a semente da dúvida naqueles que nunca repesaram sobre sexismo, racismo ou preconceitos em geral. Somos nós que criamos a normatividade e, cada um de nós pode contribuir um verso pra esse imenso mosaico de ideias que é o feminismo e ajudar a tornar o movimento ainda maior e mais fortalecido.

Essa coragem moral ainda é pouco reconhecida. Talvez você não apareça nas manchetes em caixa alta ou nos infindáveis compartilhamentos de atos nobres no facebook. Mas ela se dissemina ao vivo e, pouco a pouco, a gente acaba abrindo a cabeça dos outros e conscientizando mais a nós mesmos. E isso, pra mim, vale mais que mil joinhas azuis.

c3Não vou mais aguentar essas bobagens todas

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