11/03/2015 - Por Reflexões

Crespos e o alisamento

“Assumi meu crespo, mas…. E se eu alisar meu cabelo agora, tem problema?

Não, nenhuma pessoa deve lhe dizer o que fazer da sua vida. Exercite sua AUTONOMIA. Nenhuma pessoa está autorizada a constranger a outra por qualquer coisa, desde que essa coisa não esteja afetando ninguém (ferindo, violentando, etc). Nenhuma mulher negra militante e o que mais for, tem o direito de lhe segregar por essa escolha.

Porém isso não quer dizer que concordemos: Uma coisa é moda, a outra é estética negra. Já falamos em outro texto, estética diz respeito a um conjunto de valores que usamos para dizer o que é belo e o que não é. Moda é algo efêmero, momentâneo, muda de acordo com a tendência do momento. Assumir o cabelo crespo pode estar na moda, e por isso quando essa fase passar, alisamos nosso cabelo novamente. Mas pode não ser, pode ser enfim um reencontro definitivo consigo mesmo.

A nossa vida é cheia de contradições, medimos aquelas que vamos deixar escapar e aquelas que não vamos, mas o que significaria “deixar escapar” a contradição de alisar os cabelos novamente?

Um mundo ideal é um mundo livre, livre de qualquer modalidade de opressão ou exploração, é aquele em que possamos fazer o que quisermos sem machucar ninguém e sem que ninguém nos machuque. Esse mundo é ainda, infelizmente, apenas ideal. No mundo em que vivemos pessoas são discriminadas nas ruas, são taxas como feias – e com isso perdem de arrumar seus/suas respectivos parceiros/as de relacionamentos amorosos, dentre outras conseqüências, perdem empregos e não podem sequer tirar o passaporte com o cabelo solto, como o caso que ocorreu em 2014 com a jornalista Lília de Souza de Salvado, para quem tem o cabelo crespo.

No mundo em que vivemos cabelo crespo ainda é sinônimo de maus tratos e sujeira, e alvo de piadas. No mundo em que vivemos as pessoas estão majoritariamente alisando os seus cabelos, mas quantas pessoas você conhecem estão fazendo o sentido oposto? Ou seja, encrespando os seus cabelos naturalmente lisos? Ora, você nem sabia que existia processos químicos que alisam mas que também encrespam, né? Mas não é sua obrigação saber, qual divulgação isso tem? E por que as pessoas não estão encrespando seus cabelos na mesma velocidade que as crespas estão alisando? Porque o crespo é realmente feio ou por que existe um padrão que nos força a atendê-lo?

Se não admitirmos que o cabelo crespo é mesmo feio, e não, nós não admitimos, então temos que encontrar alguma outra explicação para este fato, de mulheres alisarem seu cabelo, mas não encresparem. Será que isso é meramente um fator subjetivo? Cada uma escolhe o que quer, e pronto? Este fenômeno em massa pode ser explicado pela mera escolha individual de cada uma? Aparentemente não.

Alisamos porque o modelo de mulher que temos em mente é o da mulher com cabelos longos que balançam, coisa que nosso crespo não permite por motivos de: Crescer para cima e não balançar. Alisamos porque é supostamente higiênico, socialmente aceitável, arrumado. Alisamos porque esse são os valores hegemônicos, e nós reproduzimos. Alisar os cabelos após tê-los assumido crespo por um período é capitular diante de seu avanço. É readmitir tudo que está posto, alisar novamente não será um exercício de liberdade, mas de desistência.

Como havíamos falado lá no início, nenhuma mulher deve ser constrangida por essa escolha, porque como temos falado, antes da consciência, o que importa é sua auto estima. E por isso todas as irmãs devem ser acolhidas e abraçadas, e assim serão. Sabemos o quanto é difícil se manter firme nas batalhas da vida, até porque são muitas, e fraquejamos, queremos desistir, fingir que não estamos sendo esmagadas pelo mundo, porém estamos. Nosso cabelo crespo pra cima é um punho fechado e erguido pelo empoderamento próprio e da nossa comunidade de mulheres pretas, e esse punho erguido nunca se renderá.

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