18/08/2014 - Por Reflexões

Ele era um problema. E a culpa não é sua.

A gente não tinha nada a ver um com o outro. Ele nunca elogiava minhas conquistas, duvidava de tudo que eu era e fazia. Ele me provocava com outras pessoas, me interrompia quando eu falava, me criticava para meus amigos. Ele não gostava quando eu falava com outros homens e queria minha atenção só pra si. Ele me desrespeitava, me desdenhava, mas tinha algo absurdamente viciante naquela personalidade problemática. O que era? Não sei. Desde o início, eu soube que ele era um problema, mas minha vontade de mudá-lo era maior do que minha capacidade de discernir que ele jamais mudaria. Por mim ou até por ele mesmo. Eu me culpei quando não deu certo. Disse a mim mesma que fui burra e que agi como uma jovenzinha iludida. Que ele era um problema e que a culpa era minha por não ter enxergado antes.

 

Quantas vezes essa mesma história (com suas devidas adaptações) é dita por pessoas que conhecemos, que conhecíamos ou conheceremos? Quantas vezes nós mesmas contamos essa história?

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“Eu sabia que ele era um problema quando ele apareceu, que vergonha a minha agora”

Calma, Taylor Swift, a culpa não é sua.

Foi essa música da Taylor Swift que me fez refletir sobre o tema e me fez querer escrever sobre isso aqui. Toda garota que já viveu essa história pelo menos uma vez, pensa naquela decepção quando a música toca. Ela fala sobre a ilusão, a decepção e a culpa. Mas, vejam só, quem a gente culpa quando as coisas se desmoronam? Nós mesmas, mais uma vez. A gente se culpa por não ter percebido antes, ou por ter insistido em alguém que não quer nada com nada, ou por ter deixado as coisas acabarem. Pode ser que em alguns casos a gente tenha culpa de alguma coisa mesmo. Mas não temos culpa pelo cara ser uma grande bundão. Sim, ele era um problema. Sim, ele te desrespeitou. Não, você não é culpada.

Por que essas frases me alarmaram tanto, a ponto de escrever sobre o assunto?

Porque é assim que a gente começa o mecanismo de culpar a vítima de um relacionamento nada saudável, que se define normalmente como abusivo. Começamos a nos culpar quando percebemos que nosso relacionamento é abusivo. E isso é assunto sério!

 

(Lembrando que um relacionamento abusivo não acontece somente entre casais heterossexuais, mas considerando o contexto da sociedade machista na qual vivemos, onde homens estabelecem relações de poder  frequentemente sobre mulheres, esse texto vai falar sob essa perspectiva) 

 

É comum observarmos numa conversa sobre esse tipo de relacionamento a famosa frase “Mas se ela tá suportando, é porque gosta”. Ou “Ela só não termina porque não quer”. E esse pensamento, além de muito limitado, é perigoso. Ele nos incentiva a normalizar esses relacionamentos doentios e nos enganar quanto à sua gravidade. É como se fosse muito simples a mulher um dia acordar e acabar com seu sofrimento. Como se ela fosse responsável por ele.

O que motiva esse pensamento, muitas vezes, é o fato de as pessoas não entenderem que um relacionamento abusivo não acontece somente em casos de violência física e sexual. Essas são formas de abuso, mas não são as únicas. Atos de violência emocional também são abusivos e, infelizmente, muito naturalizados nos relacionamentos. Quando uma pessoa ofende, engana, manipula, controla (entre muitas outras coisas) a outra, podemos dizer que esse é um relacionamento abusivo. Um texto muito bom da Revista Capitolina fala sobre o assunto e indica fatores que podem passar pela cabeça da vítima, ao manter um relacionamento como esse.

 

O problema dessas variações de abusos nos relacionamentos é que muitas se tornam um pouco complicadas de serem identificadas. A pessoa que é vítima do abuso geralmente não enxerga a situação ou simplesmente se recusa a admitir que sua pessoa amada seja um agressor abusivo. O fator que ajuda a mascarar essas variações é o quão sutis e disfarçadas elas acontecem no dia a dia. Isso é duplamente verdade no caso de relacionamentos entre adolescentes, porque nesses momentos de “primeiro amor” é normal valorizar a intensidade e a paixão acima de tudo; achar que o relacionamento tem que ser épico, dramático, que nem os filmes e livros românticos te fazem acreditar.”

A verdade é que você não é culpada por estar num relacionamento assim. E que sofrimento, drama e violência não são sinais de uma paixão hollywoodiana capaz de qualquer coisa para manter o romance vivo. Tudo isso é uma maneira de te privar de ser livre. Se você identificou seu relacionamento como abusivo, respire fundo e peça ajuda. Você não está sozinha.

 

Mais sobre o assunto aqui.

 

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