Emma Watson é a porta-voz ideal para a ONU?

Texto traduzido do original de Julia Zulver para o Aljazeera.

Emma Watson faz um discurso revolucionário sobre feminismo para a ONU” dizia a manchete na revista Vanity Fair no dia 21 de setembro.

Revolucionário? Após seu discurso na ONU, na semana passada, é evidente que vai levar mais do que apenas um toque da varinha mágica (desculpe a piada infame, Emma) para promover mudanças reais para os discursos normativos de gênero profundamente enraizados.

A ONU deve funcionar como representante para todas as pessoas, particularmente para aquelas que não possuem voz. A organização é muitas vezes criticada por ser ineficaz, por não ter poder real no mundo. Mesmo assim, ela possui enorme reputação. Quando a ONU fala, as pessoas ouvem (se são levadas a agir é, obviamente, uma outra história).

Por que, então, a organização escolheu Emma Watson para representar a nova campanha da ONU Mulheres, HeForShe? Escolher uma jovem celebridade foi, obviamente, uma decisão incrivelmente calculada: um bom modelo para as mulheres jovens em todo o mundo, um rosto conhecido, nenhum vazamento de fotos nuas (embora, aparentemente, há ameaças agora). Basicamente, a ONU sabia que se Hermione – quero dizer Emma Watson – falasse, as pessoas iriam entrar em sintonia.

GRANDES AUDIÊNCIAS

Como podemos entender essa decisão? Eu sou totalmente a favor de gerar a maior audiência possível quando se trata de temas tão importantes como o feminismo e a igualdade de gênero. O que eu não entendo, no entanto, é  porque a ONU decidiu reinventar a roda. Por que, em 2014, fez um discurso sobre a igualdade de gênero com foco em meninas que abandonam equipes esportivas e meninos que não são capazes de mostrar suas emoções até os 18 anos? Eu entendo que Watson estava falando da sua experiência pessoal, e até achei que sua franqueza acrescentou apelo emocional real para a sua mensagem, mas em um mundo onde o feminicídio, FGM, e casamento infantil são questões pertinentes, eu não acho que a experiência da menina adolescente é boa o suficiente para uma discussão na Organização das Nações Unidas.

Deixe-me sublinhar e colocar em negrito, esta não é uma crítica a Emma Watson. Eu admiro sua inteligência, sua coragem e sua reflexão. Eu não a culpo por falar sobre as experiências que ela conhece. Apesar de não ir tão longe a ponto de dizer que suas experiências pertencem a uma classe altamente elitizada e privilegiada (a mesma classe que eu provavelmente pertenço), ela admitiu: “Eu não sei se eu sou qualificada para estar aqui. Tudo que eu sei é que eu me preocupo com este problema. E eu quero solucioná-lo “.

A minha crítica, então, é na escolha da ONU de usar uma mulher branca, ocidental, heterossexual e de classe alta para falar para um grupo de nações unidas. Por que a porta-voz de uma campanha internacional deve ser uma figura tão distante para tantas meninas e mulheres? Já ouvi o argumento de que eu também estou falando de um lugar de privilégio – de privilégio acadêmico. Para quem já participou de uma aula, mesmo remotamente relacionada a gênero, qualquer coisa dita no discurso era arcaica. Para muitos, fui lembrada, este pode ser o primeiro vez que estão ouvindo falar sobre os direitos de gênero e feminismo. Watson não estava falando a um auditório da universidade, mas a um grupo de pessoas poderosas com o poder de fazer uma mudança, que geralmente pode parar de ouvir na primeira menção da palavra “feminismo”.

Em 2014, no entanto, isso não é bom o suficiente. Ao ensinar sobre o racismo, não se pode começar com um discurso que é de 30 ou 40 anos atrás dos tempos. Por que, então, nós pensamos que está tudo bem recorrer a uma versão desatualizada e mais simplificada do discurso de gênero? Apenas para que as pessoas que nunca ouviram falar sobre o feminismo sejam capazes de entender? Eu prefiro confiar na inteligência das massas, e não falar apenas sobre o feminismo que se refere à igualdade de salários, mas sim como um sistema complexo, reflexivo e discursivo das estruturas de poder com a capacidade tanto de oprimir quanto libertar.

GÊNERO BINÁRIO

Além disso, estou preocupado com o discurso de gênero binário desenvolvido. Falamos sobre homens e mulheres, mas onde é que toda o resto se encaixa? Como blogueiro babywasu pergunta: “E quanto a inclusão de pessoas que simplesmente não existem dentro do binário do gênero – assexuados e indivíduos queer – que são apagados pela redução da igualdade de gênero e feminismo como uma ideologia política de” igualdade entre homens e mulheres?

E se este é o primeiro discurso sobre o gênero que uma criança transexual ouve? O que a ONU está dizendo aos inúmeros movimentos sociais de todo o mundo que lutam incansavelmente para a capacidade legal de auto-definir a sua identidade? Podemos aceitar que esses movimentos não sejam importantes quando se trata de discursos internacionais, porque precisamos fazer dos direitos de gênero palatável para o menor denominador comum? Como podemos justificar eticamente esse tipo de dano colateral quando estamos supostamente promovendo um discurso de inclusão e igualdade?

Sou muitas vezes repreendida pelos amigos por ser muito crítica. Talvez eu devesse escutar  e apenas desfrutar o meu feed de notícias do Facebook que, pela primeira vez, está cheio de mensagens feministas, comemorativas e com os amigos se declarando publicamente feministas. Talvez eu esteja me tornando uma daquelas feministas que gera a notoriedade que leva a suposições de ódio aos homens (que, para  registro, eu não odeio).

Este artigo, no entanto, é a minha contribuição para o debate. Como acadêmica, tenho certeza de que Watson seria feliz em saber que suas palavras não estão sendo tomadas como verdade absoluta, mas sim, estão sendo debatidas, descompactadas, e questionadas. Eu não tive a oportunidade de falar na frente das Nações Unidas, mas eu tenho a oportunidade de compartilhar minhas opiniões através de outros meios. Além do mais, eu reconheço que o discurso dela tem feito a diferença – ele fez com que eu e muitos outros twitassem e postassem suas opiniões em blogs, sendo críticos por meio de várias redes de mídia social.

Minha linha de fundo permanece: Quando temos mulheres carregando o colchão em que foram estupradas em um esforço para ter seu estuprador expulso, mulheres protestando fora das prisões para aquelas encarceradas devido a abortos praticados e caracterizados como homicídios, mulheres indo para a cadeia por usaram sua música para promover direitos LGBT em uma sociedade opressiva, não podemos pensar em melhores razões para a ONU promover o feminismo do que para impedir que as jovens se preocupem que elas estão se tornando “muito musculosas”? Quando temos um cenário global e uma voz que está pingando no poder discursivo, não podemos pensar em uma razão melhor para promover o feminismo para as massas?

Os debates reais deve ser em torno de como podemos ser acessíveis sem ser exclusivos,  falar “em solidariedade com” em oposição a “em nome de” diversas mulheres que precisam desesperadamente de uma mudança em sua realidade de (des)igualdade de gênero. Caso contrário, como Spivac observou em 1988 (sim, há 26 anos!), corremos o risco de “homem branco salvando mulher negra de homens negros”. O subalterno pode e deve falar, e em 2014, estou desapontada que uma organização, promovendo a solidariedade internacional, não está dando a ele/ela/eles a chance.

 

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