27/06/2014 - Por Reflexões

Entre as quatro linhas

banana

 

Esses dias, fuçando a internet, me deparei com a notícia de que torcedores estavam usando redes sociais para hostilizar o lateral-esquerdo Marcelo, após o gol contra na estréia da seleção brasileira na Copa do Mundo contra a Croácia. Comentários como “tinha que ser preto”, “esse macaco não serve pra nada” e “qualquer um faz melhor que esse negro” apareceram destacados em textos de colunistas que sigo e que comentaram o assunto. Bem, se uma imagem, como dizem, vale mais que mil palavras, essa acima não abrange a realidade de nossa terra tupiniquim.

Lembro-me bem do dia que seguiu à atitude do Daniel Alves em campo, após ter uma banana lançada em sua direção. A imprensa alardeada repetia o vídeo do ato insistentemente, enquanto os programas da boa família procuravam o lateral para chamadas ao vivo e “especialistas” debatiam conjuntamente a esfera do ato. Para todos eles, e os apresentadores coxinhas, o racismo no futebol tinha que acabar. Enquanto ouvia as sentenças, me incomodava na poltrona, tentando entender o que significava aquilo.

A partir desse ponto, poderia falar então para começarmos pela própria FIFA, que só possui quatro dirigentes negros em sua cúpula inteira, mas o objetivo aqui é exatamente o contrário: Por que temos que acabar com o racismo no futebol?

Historicamente nosso esporte de maior prestígio tem raízes nesse preconceito, quando até meados de 1920 só era praticado por uma elite branca, contrária a profissionalização da prática. Essa ideologia começou a ser combatida em 1923, quando o Vasco da Gama, clube do subúrbio do Rio, se sagrou campeão estadual misturando negros, brancos, taxistas, pedreiros e barbeiros. Em tempo, já nesse acontecimento o futebol se desenhava como um fenômeno patriótico, que viria a ter políticas organizadas e centralizadas (bem como o seu profissionalismo) a partir do governo de Vargas, que idealizaria o projeto do Maracanã e traria a copa a essas terras.

De 1950 pra frente, o Brasil passou a revelar craques do mais refinado escalão, dentre eles, os quais lembro-me: Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Didi, Vavá, que deram o título de 1958 para o Brasil, e mais tarde em 1962 acrescidos de Amarildo, Coutinho e Pepe. Em 1970, mais uma vez, o time brasileiro era recheado de craques: Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivellino, Gérson, Clodoaldo, Piazza e Carlos Alberto Torres. Em sua maior parte negros, dentre eles o líder da nossa história, Pelé. Vale lembrar que entre esse período o samba passou por uma grande difusão, influenciada em partes pelo governo de Vargas, gerando outros ritmos (como a bossa nova) e se reaproximando com o morro até o ano do tricampeonato, marcado pelo surgimento de Beth Carvalho, Clara Nunes e Bezerra da Silva que juntos com Paulinho da Viola e Martinho da Vila formariam a nova geração. Claro que não preciso dizer que o samba veio do negro.

Estava formado assim o eixo da nossa cultura urbana, com seus elementos folclóricos e demarcações nítidas: um ritmo popular, uma seleção gloriosa e a mulata. Nos três o negro, e um paradoxo presente. Em 1950-1970 (e até 1988), analfabetos (em sua maior parte negros) ainda não podiam votar e a política de remoções de favelas vivia seu ápice: o pobre favelado tinha que ser jogado às periferias para atender a projetos de cidade. Aos meus olhos, mesmo com certa imaturidade intelectual, havia formada uma idéia que ainda hoje predomina nosso imaginário: O negro, figura central de nossas raízes, é ao mesmo tempo uma mazela.

Em relação a Daniel Alves, Pelé disse que “não há tanto racismo assim no futebol”. Relevando sua costumeira ignorância, não sei sobre sua experiência internacional, mas aqui ninguém o chamaria de macaco. Porque repito, ele foi o maior da história. Ao alçar-se aos olhos do mundo através do paradigma do futebol como motor do desenvolvimento social, Pelé (junto com nossa raiz musical) com certeza mudou os olhos do Brasil para o negro, mas esse olhar se camuflou em noções perigosas, que vemos refletidas em nosso cotidiano extremamente naturalizadas.

Ao contrário de países assumidamente racistas, por aqui desenvolvemos esse fato de maneira mais velada. O mito da marginalidade ligada à pobreza, o descaso público e o sufocamento tendencioso imposto pela mídia nos colocou num limbo, separando completamente o que é nossa vida intra e extra mundo, o social e o cultural. Temos uma consciência cívica de que não podemos ser racistas, mas ao mesmo tempo somos engolidos pelo senso comum, uma força retroalimentada que não sabemos bem a origem, mas conhecemos muito bem o seu fim.

“Nada contra os negros, MAS… não quero minha filha subindo comunidade.”

Ele nos transforma em máquinas reprodutoras de atitudes que acreditamos ser necessárias para nosso bom convívio e segurança. Quem nunca trocou de calçada após ver de madrugada uma figura suspeita? Quem nunca entrou em um elevador e dissecou com o olhar o cidadão presente? Quem nunca estranhou um casal miscigenado? É quando penso dessa forma que me volto no questionamento insistente do dia que se seguiu a banana de D. Alves e a falha de Marcelo: Temos que acabar com o racismo no futebol?

A resposta, leitores, é que sim, temos. E o pior disso, só no futebol. É lá que o negro, que não viu lá grandes chances de crescer na vida de outras formas, de família humildade, pode ter um reconhecimento de pessoa tão importante quanto qualquer outra. É lá que o Black Power é moda, que o samba no pé em cada gol é louvado e que a ginga é natural da cor (afinal, ninguém imagina um Rei das Pedaladas nórdico). E quando falo negro, já cometo um erro étnico-social. Se sair de sua condição de ostracismo social e alcançar o sucesso econômico pretendido já não é mais negro, é moreno, marrom bombom, mulato, pardo, amarelo, da cor do pecado, entre tantos outros. Fora das quatro linhas e da roda de samba preto é quem mora na favela, na periferia, tem casa invadida, vive de bolsa família e pega o trem lotado às 18h.

Ao responder uma entrevista sobre a pífia campanha #somostodosridículos, o CEO da marca fez a seguinte declaração: “Acabamos com o racismo quando roubamos a palavra”.

Pensando bem, acho que já roubamos demais.

“O sol nasce pra todos, mas a sombra é para poucos.” Marcelo D2

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