Eu tenho medo, mas sei que não deveria

Toda mulher, algum dia na vida, já sofreu ou irá sofrer assédio sexual na rua ou em outros lugares por onde passar. E não importa, pode ela ser “feia”, “bonita”, “gorda”, “magra”, “gostosa”, “mais ou menos”, etc (tudo isso está entre aspas pois são palavras usadas para descrever biotipos femininos com base em um padrão de beleza variável e flexível a cada zeitgeist, o espírito do tempo atual). 

Mas talvez seja um fenômeno mais recente isso de mulheres que estão cansadas a se submeterem às artimanhas do machismo começarem a revidar os assédios, atos que para alguns são vistos apenas como elogios (eu mesma não vejo nenhuma mulher por aí “elogiando” homens e, se fosse elogio, não seria algo só de homem para mulher, seria universal – a mesma coisa funciona com o cavalheirismo). Eu, por exemplo, sou uma e conheço outras várias, o que é meio óbvio por eu conviver num círculo social com muitas feministas inseridas. 

A minha primeira experiência foi libertadora: estava no Poupa Tempo de Guarulhos, SP, passando na rua atrás da minha mãe, quando um homem olhou pra mim, falou algo que não lembro e nem desejo lembrar. De repente, senti minhas veias contaminadas por um líquido invisível da raiva e da vingança, isso em questão de um segundo ou menos, e me virei, lançando um olhar mortal e um dedo do meio. Nem cheguei a ver a reação dele, entrei logo no carro onde meu pai nos esperava e estava extremamente contente e eufórica, queria contar e gritar pro mundo sobre o meu feito. Quando contei pros meus pais, eles não viram isso como algo legal, acharam ok o homem mexer comigo. Me abalei um pouco, mas ninguém tirava de mim essa sensação incrível que é de desafiar as armas do patriarcado. 

A segunda experiência foi num ponto de ônibus em Belo Horizonte, que fica mais ou menos perto de casa. Estava lá sentada olhando uma mulher e seu filho interagindo com uma senhora quando um caminhão de lixo passou e havia nele três garis em pé na parte de trás. Um olhava pra mim e o outro resolveu ir mais além, mexendo comigo. Novamente, encarei e mostrei o dedo do meio, mas vi sua reação: ficou assustado.

A minha terceira e última reação não faz tanto tempo, mas foi num restaurante na frente de onde estagio. Havia uns 6 rapazes com roupas sociais, deviam estar no horário de almoço da firma. Eram, mais ou menos, umas 11h30. Quando passei atrás da mesa deles, eles ficaram olhando e um resolveu mexer comigo. O problema é que o local é bem pequeno. Fui servir meu prato e sentei duas mesas pra frente, mas de costas pra eles. Na hora em que fui pagar minha conta, eles estavam indo embora, mas três ficaram pra trás e tive que passar do lado de um deles. Ele disse no meu ouvido “tchau, gata”, mas imediatamente me virei e gritei “me deixa em paz, seu otário” (confesso que fiquei planejando esse xingamento durante todo o tempo em que almoçava, rs). Ele nem conseguiu reagir direito, não consegui ver seu rosto e sua reação pois ele já tinha continuado seu caminho, já que não esperava que eu pudesse retribuir, o “elogiando” também. 

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Mas agora, pensando nas duas últimas situações, é que vou revelar algumas coisas por trás que sobraram das minhas atitudes. No caso do gari, um ou dois dias depois eu estava no mesmo ponto de ônibus e os mesmos homens passaram.

Quando eu percebi, fiquei morrendo de medo, já que poderiam me ver e saberiam onde frequento ou que moro por lá. Então eu tentava esconder o meu rosto pra ninguém me reconhecer. Patético, né?

Já na situação do restaurante, eu mudei o meu horário de sair pra almoçar com medo de encontrar o cara que xinguei lá e ele, sei lá, me humilhar, mexer comigo de novo, ir atrás de mim porque, no caso, eu que humilhei ele, etc. Além disso, 3 reações a assédios é um número muito pequeno pensando no dia-a-dia de todas as mulheres. Antes de retornar o “elogio”, diversas considerações passam na minha mente, como o lugar onde estou, quão cheia ou vazia a rua está, quem está por perto, já que é melhor me certificar de que é “seguro” reagir. Quantas vezes eu quis virar e xingar o cara, mas o silêncio talvez tenha sido uma resposta melhor pro momento – infelizmente.

Às vezes eu paro pra pensar e tenho orgulho de enfrentar essas situações tão cotidianas, mesmo sabendo que posso sofrer consequências péssimas com isso também. Eu tenho medo, mas sei que não deveria. Sei que posso e devo me empoderar, não aceitar essa situação, correr atrás dos meus direitos e da minha desobjetização. Não sou uma vitrine ambulante passando na rua para qualquer homem me observar, analisar meus atributos e, se gostar, comprar. Não devo, não quero aceitar isso. Tenho o direito de andar nas ruas, nas calçadas e não ter medo de estar ali, poder passear tranquilamente, com qualquer roupa, qualquer humor e qualquer destino.

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Na verdade, eu não devia temer os homens: eles que deveriam ter medo de mim. Medo de saber que vou, sim, reivindicar minha paz, minha liberdade e meu bem estar, acima de qualquer privilégio que eles possam ter por conta desse mundo bagunçado onde eu nasci. 

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