25/06/2015 - Por Reflexões

Feminismo tem que ser manso?

Este texto não é uma apologia à forma rude de tratar as pessoas, é uma explicação de porque algumas vezes as feministas (geralmente as mais velhas no movimento) se expressam de modo impaciente.

No livro Dicionário Machista de Salma Ferraz, há expressões de machismo de 3 mil anos, como por exemplo a citação da Bíblia em Juízes 19:22-29 que diz:

“[…] Eis que homens daquela cidade […], cercaram a casa , batendo à porta; e falaram ao velho, senhor da casa, dizendo: Traze para fora o homem que entrou em tua casa, para que abusemos dele. O senhor saiu a ter com eles e lhes disse: Não irmãos meus, não façais semelhante mal; já que o homem está em minha casa, não façais tal loucura. Minha filha virgem e a concubina dele trarei para fora; humilhai-as e fazei delas o que melhor vos agrada; porém a este homem não façais semelhante loucura. Porém aqueles homens não o quiseram ouvir; então, ele pegou da concubina do levita e entregou a eles fora, e eles a forçaram e abusaram dela toda a noite até pela manhã; e subindo a alva a deixaram. Ao romper da manhã, vindo a mulher, caiu à porta da casa do homem, onde estava o seu senhor, e ali ficou até que se fez dia claro. Levantando-se pela manhã o seu senhor, abriu as portas da casa e, saindo a seguir o seu caminho, eis que a mulher, sua concubina, jazia à porta da casa, com as mãos sobre o limiar. Ele lhe disse: Levanta-te, e vamos; porém ela não respondeu; então o homem a pôs sobre o jumento, dispôs-se e foi para sua casa. Chegando a casa, tomou de um cutelo e, pegando a concubina, a despedaçõu por seus ossos em doze partes […].”

Sejam escritos inspirados por um Deus ou não, são registros históricos de como a humanidade adotou desde há muito tempo a ideia de que a mulher deve ser inferior, desprezada e odiada, de que são apenas instrumento para reprodução, veículos do pecado.

Todxs nós nascemos sob este regime que oprime o gênero feminino, que vem passando por mudanças mas ainda está longe de se tornar ideal. As pessoas que não estão muito por dentro disso, que vivem como que numa Matrix onde tudo corre bem, não percebem o quanto as mulheres são agredidas diariamente pelo machismo milenar. A coleção da Risqué Homens que amamos e a campanha #Semmimimi da Novalfem são exemplos de agressões recentes  que afirmam que as mulheres devem viver para os homens e de que suas “dores”, não só as menstruais, devem ser minimizadas.

A copa Mundial de futebol feminino começou, não foram declarados feriados os jogos da deleção brasileira feminina, ao contrário da masculina. A jogadora Marta se tornou a maior artilheiras brasileira em copas, superando Ronaldo ‘Fenômeno’, mas seu desempenho extraordinário não justifica o reconhecimento expresso em exibição em TV aberta e feriado no dia do jogo, porque ela é mulher. Eu, particularmente, tento ouvir quando a coisa é nova, pois não é só porque sou mulher/feminista que reconheço machismo, afinal também nasci sendo ensinada contrariamente à minha vivência, mas quando recorrentemente ouço aqueles típicos argumentos machistas (ou a falta deles) é natural também cansar-me dessa violência cotidiana.

Ignorando o fato de enfrentarmos algo enfadonho, há, de forma inconsciente e coletiva, um guia de etiqueta para mulheres/feministas sobre como militar diante do machismo diário que enfrentam. Geralmente quem o usa não sente na pele e nem se coloca no lugar delas para compreendê-las. Ele diz que as mulheres devem suportar o machismo continuamente sem se cansar, sem nutrir nenhum sentimento ruim pelo seu agressor, sem ficar na defensiva pois um próximo ataque não virá (mas na verdade pode, e pode muito, vir). Diz que devemos lutar apenas pelos direitos que lhe pareçam necessários (“sentir calor e mostrar o peito, assim como os homens fazem, já é demais”, eles dizem).

Deve-se aceitar que um homem cis, que não sente na pele e não passou pela sua vivência determine o que é aceitável e o que é exagero do seu discurso. Falam que você tem que buscar seus deveres e não só seus direitos, embora muitas mulheres já dêem conta de deveres que não são só seus, sustentando famílias com jornada tripla trabalhando fora de casa, dentro e cuidando das crianças abandonas pelos pais. E também sejam as que mais se esforcem a se capacitar para o trabalho, e apesar da maior escolaridade ainda recebam menos.

Devem passar por todo esse linchamento sendo pacientes, pedagógicas, usando feminismo de farmácia, pedindo pela igualdade, como se já pudéssemos partir do mesmo ponto social e sermos iguais aos homens. Como se equidade e justiça não fossem necessários para combater a desigualdade de gênero. Se você não seguir esse guia de etiqueta, esteja certx de que a citação de que ‘o sonho do oprimido é virar opressor’ será aplicada a você, pois você só pode estar praticando machismo inverso se reagir diante de algo machista. Dirão que você, feminista, não representa bem o feminismo. Será?

Essas milhares de recomendações de etiqueta para as feministas mostra a falta de empatia e compreensão tão comuns na sociedade. A sociedade não entende que a “ação” dos opressores é uma pancada sistemática, que nos atinge de todos os lados, enquanto a “reação” (que não é sistemática e por isso tem menos força), é um movimento de autodefesa, de resistência. Que o discurso forte de uma feminista muitas vezes é uma expressão empoderada de que não seremos dominadas como já fomos.

Nós, feministas, travamos uma luta e precisamos entender que não necessariamente precisamos de um feminismo manso para vencê-la. Quem não quiser perder seus privilégios naturalmente se oporá a essa luta, não importa o quanto gentis sejamos. Não precisamos ser agradáveis aos que se declaram nossos adversários, mas induzí-los a reflexão, de modo enérgico se necessário. Não podemos esconder criticas necessárias à mudanças de atitude, em favor da paz. Excluir os direitos das minorias não é nada pacífico. A paz apenas para alguns chama-se massacre.

Eu, pessoalmente vario as minhas formas de militar, mas acima de tudo, sei que o meu modo de militar não faz as ideias pelas quais milito valerem menos. Entendo pelos meus anos de feminismo que o melhor modo de militar é o que as vezes pára para tomar fôlego, mas nunca desiste.

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