24/09/2015 - Por Reflexões

Hetero, porque sim.

A sociedade pensa que eu sou hetero.

Meus amigos, minha família, as pessoas com quem interajo diariamente. Tamanha é a influência da heterossexualidade compulsória, até eu mesma me achei hetero durante muitos anos da minha vida. Se eu gosto de homens, é isso que eu devo ser né? Hetero. Já ta tudo resolvido. Porque ou você gosta de homens, ou você gosta de mulheres. Quem gosta de mais de um gênero tá fazendo bagunça, tá querendo aparecer. Logo se decide. Afinal, bissexualidade não existe. Pansexualidade então, o que é isso? Essa gente já não tem mais o que inventar. Não existe fluidez da nossa sexualidade, não existem outras formas de você se identificar. Separam as pessoas em duas caixinhas, a partir das aparências e de seu “histórico” e ta tudo certo.

E até então eu estava na caixinha das pessoas heterossexuais. Por que eu escolhi? Acredito que não.
Num belo dia da minha adolescência, eu beijei um cara. Foi a partir desse momento que perpetuaram a minha heterossexualidade? Talvez tenha sido um tanto antes. O processo começa quando proferiram “É menina!” e me deram um enxoval de expectativas e padrões a corresponder, antes mesmo de saber o que ser menina poderia significar.

O processo continuou ao longo de minha infância, quando me perguntavam insistentemente se eu tinha namoradinho na escola. E eu, como uma criança que busca aceitação de seus pais e familiares, procurava qualquer indivíduo que pudesse ocupar essa posição. Ou quando andar de mão dada com as minhas amigas significava uma coisa e com meus amigos significava outra. Quando a configuração “pai, mãe e filhos” era a única que eu via no meu cotidiano, fosse em casa, fosse na tv ou nos filmes. Aos poucos, eu fui condicionada a pensar que eu devia ser heterossexual. Que essa era a caixinha que me foi designada. Se eu percebi com o tempo que me atraía por homens, o que mais eu poderia ser?

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Ao assumirem automaticamente que eu sou hetero, por me relacionar com homens, as pessoas a minha volta me fizeram assumir isso sobre mim mesma também.

Foram necessários muitos papos, muita reflexão e, principalmente, muita desconstrução para entender que talvez eu não fosse o que achava que eu era. Precisei olhar para dentro, para o que eu sentia. O que eu queria.

Antes de pensar no processo de ter que “sair do armário” para a sociedade, eu tive que sair do armário para mim. Pois eu nunca havia pensado por muito tempo sobre a possibilidade da existência desse armário do qual eu precisava escapar. Sempre havia uma justificativa para que a minha heterossexualidade tão “preciosa” fosse mantida. “Toda mulher é meio bissexual”, “É normal você sentir isso, não passa de curiosidade”.

Por que questionar sua própria sexualidade, quando ela se enquadra parcialmente no que a sociedade delimita para a gente como a sexualidade “certa”? A pergunta que não quer calar é “por que NÃO questionar?”. Precisamos parar de ver a heterossexualidade como modo default de um indivíduo. É preciso ao menos considerar que somos plurais e que quando você supõe que alguém é hetero, junto cresce a imposição de que é isso que precisamos ser.

Não foi e não está sendo fácil. Estou passando por um processo muito novo para mim de autoconhecimento e aceitação. Mas ainda há muito medo. Ainda policio minha fala, quando estou perto da maioria das pessoas do meu convívio, por não saber que reação esperar. Ainda piso em ovos quando falo sobre atração, sutilmente não atribuindo gênero à pessoa sobre quem falo. Se eu comento sobre a beleza de uma mulher, ainda supõem que é exclusivamente em tom de admiração. E se eu me sinto à vontade para falar explicitamente que me atraio por aquela mulher, eu só posso estar brincando e exacerbando o tom de admiração já demonstrado anteriormente.

Ainda não sei como expressar livremente minha sexualidade. Ainda atenuo um comentário que eu diria com naturalidade sobre meus desejos perto de gente que eu confio, por saber o climao que vou causar e ainda não sei se estou pronta para isso. Para enfrentar o que vier.

Queria não ter que “sair do armário”, queria que isso não fosse necessário. Porque não me lembro do momento que tive que me revelar hetero para a sociedade. Ela simplesmente me empurrou essa realidade, sem pedir permissão. Em nenhum momento cogitaram qualquer outra possibilidade. Em nenhum momento pensaram que eu posso ser quem eu sou hoje. Quem estou descobrindo ser.

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Esse texto foi escrito por mim há aproximadamente 7 meses. Você pode pensar que isso é muito tempo, muita espera e eu não poderia concordar mais com você. Levou tudo isso para que eu me sentisse confortável para dividir com o mundo (ou ao menos com as pessoas que acompanham o site) o que tenho sentido desde então. Quando escrevi essa palavras, prometi a mim mesma que não as publicaria anonimamente. Queria fazer isso por completo, sem medo do que viria depois. O medo ainda existe, mas opondo-se a ele existe a resistência. Existe a necessidade de não omissão. Existe o desafio de encarar o que vier. Existe a importância de ser cada vez mais verdadeira comigo mesma.
E hoje, essa verdade foi maior que o medo. Que ela continue sendo.

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