16/03/2015 - Por Reflexões

História e Política

Vamos esclarecer umas coisas, para não começarmos no lado errado: sou de esquerda, votei PSOL no primeiro turno e, no segundo, diante de Aécio Neves e PSDB, me vi obrigada a votar no PT. Também sou jovem, ignorante em muita coisa, mal conheço economia, e grande fã de história.

Esse último é importante, porque isso significa que eu amava assistir mil documentários e ler mil livros sobre tudo que é história, em particular dos piores momentos da humanidade. Psicólogos talvez expliquem minha fascinação com o desastre, mas o fato é que eu lembro até hoje das minhas aulas de história sobre a segunda guerra mundial e as bombas que caíram em duas cidades que não tinham nada com aquilo, sobre a ditadura brasileira e as torturas sem sentido, sobre o nazismo e tudo de pior que essa humanidade já viu.

Pois bem. Ontem, pra quem mora debaixo de uma pedra e não sabe, foram os protestos pró-impeachment, contra-PT. Eu digo isso de maneira geral, porque o movimento não tem exatamente pautas definidas, até pela absoluta falta de liderança concreta – ninguém conseguiu me explicar se o objetivo é colocar o vice no poder mesmo (nesse sentido, isso é uma passeata pró-Temer?), se acabar com o PT acaba com a corrupção, ou se quem quer a volta da ditadura militar é minoria lá mesmo.

Olha, tem que ter muita coragem para levantar a mão e falar que o governo está sendo maravilhoso – o PT traiu em boa parte a esquerda, mal esperou a coisa esfriar e já começou com as medidas que prometeu que não ia fazer. Mas é aí que pega a questão para mim – essas medidas são exatamente as que a direita disse que ia fazer, e, aparentemente, é a direita que vai as ruas agora, e bate panela nas janelas, cheia de raiva.

Difícil falar contra o que, exatamente, esse povo todo grita. Se é contra a corrupção, é no mínimo estranho que o PSDB e o PMDB, dois partidos cheios de história de dinheiro sujo, escapem impunes dessa (diga-se de passagem, a PM de São Paulo, tão violenta em 2013, ficou tranquila ontem). Se é contra as medidas econômicas, repito que não me parecem diferentes do que a oposição ia fazer. Não se fala de reforma política, de direitos humanos, da falta de água, de Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Geraldo Alckmin.

Manifestação faz parte da democracia, e é maravilhosa. Mas essa manifestação não me parece levar a lugar nenhum, me lembra nada se não aqueles documentários todos que eu assisti a tanto tempo atrás. Gritar contra a corrupção vestido com a camisa da CBF, plaquinhas de revolta em inglês, um nacionalismo exacerbado definindo o que é ser brasileiro (nesse ponto de vista, não sou, imagino). Colocar o PT como culpado absoluto, como se tirá-lo fosse acabar com a corrupção, me preocupa mais do que o pessoal que balança a cabeça e fala que a corrupção no Brasil simplesmente não tem jeito.

Ano passado, nas manifestações, muito se discutiu sobre a participação de partidos nos protestos, e agora vejo a volta disso, um orgulho dessas passeatas sem liderança. Mas não é nas democracias que se proíbe partidos, isso chama ditadura. Vemos mais uma vez, um povo brasileiro que branda contra a política e continua completamente despolitizado.

Defendo, mais que nunca, a importância da história, de entender nosso passado e como ele ainda nos afeta. ‘O passado só é importante enquanto presente’, meu irmão, aprendiz de psicólogo, sempre diz, e ele tem razão – enquanto nosso passado ainda nos define, nossos erros ainda nos perseguem, não podemos esquecer e agir como se a situação política do Brasil nascesse do nada, como se a corrupção tivesse sido inventada quando um metalúrgico chegou a presidência. A mídia que grita contra o PT esquece de nos falar que, 31 dos 49 nomes da lista da Lava-Jato enviada ao STF, são do Partido “Progressista” (partido de criaturas como Paulo Maluf e Jair Bolsonaro), descendente direto da Arena, o partido de sustentação da ditadura.

Não tem problema ser contra o governo, mas, enquanto as manifestações não falarem do que realmente precisa ser dito, der soluções que realmente mudem a estrutura política do país, passarei meus domingos almoçando com a minha avó.

Fica aqui um último relato, do meu domingo. Quando perguntei para meus pais se eles lutaram contra a ditadura, ambos disseram que não – meu pai estudava em escola militar na época, e minha mãe, apesar de estudante da USP, conta que era bem alienada sobre essas questões. Bem, no domingo, minha mãe, assistindo vídeos das manifestações, suspira e diz “queria estar ali”, como se fosse um show interessante que ela perdeu por problema de horário. Imagino que ela queria dizer que queria mostrar sua indignação, participar da vida política, mas, embora tenha escolhido não dizer nada na hora, me pergunto se ela quer um impecheament, se quer o Temer no poder, o que ela acha do financiamento das campanhas políticas por parte das empresas privadas, se ela não vê problema em dizer que odeia corrupção e ter votado no Alckmin.

Tenho vontade de dizer para ela que eu não acho que isso é política – gritar contra um ou outro, sem falar de mudanças concretas, sem participar (você sabe em quem você votou?). Tenho vontade de perguntar se ela preferia os anos de ditadura militar, quando não se incomodava com essas coisas políticas, o que ela acha de reforma política, tributária, agrária, midiática.

Mas eu sei que as chances desse diálogo cair em “você não entende” e “é muito jovem” são altas e não tenho vontade de voltar nisso, depois de finalmente ter superado a fase terrível das eleições. À noite, quando começaram a se bater panelas novamente, minha mãe abriu as janelas e eu me irritei – não sei o que o Ministro estava dizendo, se era relevante ou não, se era algo que agradava ou não. Mas tenho certeza que o dia seria mais produtivo se, ao invés de tanto barulho e ódio, a gente fosse capaz de ouvir o que as pessoas que colocamos no poder tem a dizer, para poder criticar ou não.

A gente fica muito tempo discutindo se é ou não a elite branca que se revolta. E, para quem não acredita nas fotos ou nos chamados esquerdopatas, a própria mídia internacional está dizendo que, comparado aos de 2013, esse protesto é “mais velho, mais branco e mais rico”. Não me interessa aqui discutir porque isso (embora valha outra lição de história, de porque a elite é historicamente ligada a ideais de direita, e porque é tão maioritariamente branca). Mais importante do que quem fala, é sobre o que fala. E, por enquanto, ninguém fala de nenhuma reforma e muito menos de História (com letra maiúscula, para deixar claro a importância). Se tem gente lá dentro, uma pessoa que seja, achando que com impeachment o Aécio assume, ou que intervenção militar é a melhor opção, já é gente demais, e essa ignorância é muito mais urgente, ao meu ver, se queremos re-trabalhar a política desse país.

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