13/11/2015 - Por Reflexões

Jogos Vorazes e o racismo

Assim que eu comecei a ler Jogos Vorazes, eu me apaixonei pela história – li os três livros em três dias, no meio das aulas, ignorando tudo ao meu redor. Mesmo com as críticas de várias pessoas, eu adorei o terceiro livro, e achei que era o final que a história precisava (sem spoilers). É uma história poderosa, bonita, triste e incrivelmente real, no sentido que se utiliza de elementos que vemos na nossa sociedade.

O último filme estreia semana que vem, então é uma boa hora pra lembrar o maior problema dos filmes – o whitewashing que a Katniss sofreu e como a história perde com isso. No livro, a Katniss não é branca – é até um ponto de destaque, porque ela se diferencia da irmã e mãe, loiras e brancas, com o cabelo escuro e pele “cor de oliva”.

Antes de falar da Katniss e porque é ruim ela ser interpretada por uma atriz branca, vamos começar pelos distritos. O mundo dos Jogos Vorazes não discute etnia ou raça em nenhum momento dos livros – seria, a princípio, um mundo “pós-racial”, onde as pessoas não vem cor. Mas fazendo uma leitura mais profunda, fica claro que as diferenças de etnia estão intimamente ligadas as desigualdades sociais dos distritos.

No Distrito 12, da Katniss, existe uma divisão – a Costura (Seam), local onde Katniss mora, é a região mais pobre do distrito, e seus habitantes são descritos como “cabelos escuros, olhos cinza, e pele de oliva”, como Katniss e seu pai. A mãe da Katniss e a Prim se destacam nesse meio, por ter cabelos loiros e olhos azuis – essas características são herança da área dos Comerciantes, onde a mãe de Katniss morava. Interessante notar que a família da mãe corta todo o contato com ela depois que ela casa com alguém de um grupo “inferior”.

O Distrito 11, também, é descrito como principalmente pobre e negro – Rue e Thresh são ambos de lá, onde a agricultura é a principal atividade e os habitantes são por vezes “chicoteados em público”. São referências claras a escravidão.

Então, temos os dois distritos mais pobres, com populações não-brancas grandes, onde a opressão parece ser mais severa do que em outros distritos (principalmente o 1 e 2, onde os personagens são constantemente descritos como loiros e brancos). O mundo de Jogos Vorazes parece um mundo em que raça não se discute – como os argumentos de “eu não vejo cor, somos todos iguais”, isso não mude que haja uma exploração sistemática da população não-branca.

Isso é importante por causa dos paralelos com a sociedade atual – a maioria das pessoas não sofre uma opressão da maneira como os habitantes de Panem sofrem. Mas alguns sofrem – existe uma grande população, negra e pobre, no Brasil e no mundo, que é constantemente atacada pela polícia, oprimida, mantido longe do acesso a melhores condições de vida. Pense em Ferguson, nos Estados Unidos, onde um jovem negro levou uma série de tiros da polícia, mesmo não estando armado, com as mãos aos altos. Quando a população se rebelou, o governo teve uma reação violenta e a reação de muitas pessoas foi dizer que “ele era suspeito, estão exagerando, a polícia só estava fazendo seu trabalho”. Não muito depois um menino de 12 anos, Tamir Rice, também foi morto pela polícia – é a mesma idade que Rue tem nos livros.

A opressão de Jogos Vorazes é real. Crianças inocentes estão morrendo – acontece e, exatamente como nos livros, a população que mais sofre é a negra e pobre. Colocar uma atriz branca permite que a gente continue ignorando que isso acontece – de repente, podemos fingir que é só fantasia.

Importante notar, também, que a revolução não começa com a Katniss – começa com a Rue, uma pequena menina negra (SPOILERS PRO PRIMEIROS LIVRO/FILME). É com Rue que a Katniss cria uma aliança “inútil” – diferentemente das alianças do jogo, que só ajudam a sobreviver até que os participantes se matem, Rue e Katniss tinham afeto uma com a outra, eram amigas. Quando a Rue morre, a Katniss se recusa a “jogar pelas regras do jogo”. Ela honra a menina, canta pra ela, cria um funeral em meio aos Jogos – independente do que a Capital dizia, para a Katniss, a vida de Rue tinha valor.

A partir daí, tudo muda. O distrito da Rue manda pão pra Katniss, Thresh salva sua vida em homenagem a Rue. A música do Tordo, tão presente nos três livros, é apresentada pela primeira vez através da Rue. Isso continua nos próximos livros, com a Rue sendo constantemente citada – Katniss faz um discurso no seu distrito, Peeta desenha ela para a capital. Uma pequena menina negra ajudou a iniciar a revolução.

A Katniss não ser branca é importante nesse contexto – é uma mulher não-branca, cheia de fúria pela morte de uma irmã sua, que era inocente e boa e que não merecia o destino que a Capital escolheu pra ela. Ambas mulheres, ambas de etnias não-brancas, liderando uma revolução contra uma capital (maioritariamente branca) que oprimia suas famílias – é a história de vários atos de revolução da história. É o grupo que mais tem a perder, então é o grupo que mais luta pelos seus direitos.

Perdemos essa dimensão nos livros com a Katniss branca – a luta das mulheres oprimidas se mantém, verdade, mas a dimensão racial, tão presente na nossa sociedade, é apagada.

Recentemente, saiu o filme Stonewall – conta a história de uma série de protestos violentos feitos contra a polícia pela comunidade LGBT+ na Nova Iorque de 1969. As duas pessoas mais creditadas por terem acendido a centelha que deu origem às manifestações e terem pavimentado o caminho para o movimento LGBT+ atual, são Marsha P. Johnson – uma mulher trans negra que performava como drag queen -, e Sylvia Rivera – uma mulher trans porto riquenha. Mas no filme o protagonista inventado é um homem gay branco.

É ofensivo – é apagar a história e esconder os grupos mais atingidos pelas opressões. É colocar salvadores brancos nas histórias de pessoas negras e, mais que tudo, tentar esconder de pessoas não-brancas – principalmente de mulheres – que, juntas, elas são capazes de mudar toda a sociedade.

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Devido a comentários sobre a Katniss não ser descrita como negra exatamente, troquei para “não-branca”, para incluir outras etnias! Obrigada a todos que fizeram essa correção!

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