25/05/2015 - Por Reflexões

Lufa-lufa e a empatia

Não há nada escondido em sua cabeça

Que o Chapéu Seletor não consiga ver,

Por isso é só me porem na cabeça que vou dizer

Em que casa de Hogwarts deverão ficar.

Quem sabe sua morada é a Grifinória,

Onde habitam corações indômitos.

Ousadia e sangue-frio e nobreza

Destacam os alunos da Grifinória dos demais;

Quem sabe é na Lufa-lufa que você vai morar,

Onde seus moradores são justos e leais

Pacientes, sinceros, sem medo da dor;

Ou será a velha e sábia Corvinal,

A casa dos que têm a mente sempre alerta,

Onde os homens de grande espírito e saber

Sempre encontrarão companheiros seus iguais;

Ou quem sabe a Sonserina será a sua casa

E a li fará seus verdadeiros amigos,

Homens de astúcia que usam quaisquer meios

Para atingir os fins que antes colimaram.

Vamos, me experimentem! Não devem temer!

Nem se atrapalhar! Estarão em boas mãos!

  • SELETOR, Chapéu. (Rowling, J. K.; Harry Potter e a Pedra Filosofal)

 

Toda pessoa que leu Harry Potter adolescente, ou quase isso, tem essa vontade (uma espécie de necessidade, ouso dizer) de saber em que casa de Hogwarts estaria, mesmo que a escola não exista de fato. Todos os fãs da série se debruçam sob o enredo procurando pistas e mais pistas que digam a eles onde se encaixam. Correm pelo submundo da internet diversos textos explicando e teorizando as quatro casas de Hogwarts, testes e mais testes surgem a qualquer momento – e nós os fazemos esperando que, um dia, encontremos a resposta.

Depois de chegarem a suas conclusões, as casas – Corvinal, Grifinória, Lufa-lufa e Sonserina – acabam virando uma espécie de time para aqueles que a elas pertencem. E podemos falar isso com toda certeza do mundo, porque, como boas fãs de Harry Potter, também temos muitas opiniões e teorias sobre todo o mundo mágico que J. K. Rowling criou.

Os arquétipos não são difíceis de identificar. Apesar de, é claro, algumas características serem comuns a mais de uma casa, o estereótipo do aluno ideal de cada uma delas é claro:  Corvinal é aquele que valoriza a troca e o acúmulo de saberes; Grifinória, aquele cuja coragem (ou impulso) guia suas ações; Lufa-lufa, aquele que valoriza a gentileza, a bondade, o afeto; e Sonserina é aquele ambicioso o suficiente para  não se deixar levar pelas dificuldades no caminho de seus objetivos.

Entendemos a importância de todas essas qualidades – e como elas podem ser usadas para coisas positivas, da mesma forma que usadas para o que é visto como negativo. O maior exemplo disso é a Sonserina. Tida no livro como a pior casa, a casa do mal, Sonserina é descrita pelo seu lado negativo (a ambição que passa por cima de tudo). Mas todo mundo que já quis algo na vida sabe que a ambição é uma das coisas que nos movimenta, um combustível importante e, muitas vezes, essencial para que consigamos aquilo que tanto almejamos. O que acontece é que J. K. Rowling optou pela criação de uma narrativa mais simples e objetiva, que acaba tangenciando um território bem maniqueísta – o que, sim, ajuda na compreensão da mensagem, mas não pode servir de parâmetro para nossa realidade, que é bem mais complexa do que bem versus mal.

Dentro de toda essa discussão, uma casa periférica se perde. Pouquíssimo mencionada nos livros, menos ainda nos filmes e, muitas vezes, esquecida até mesmo pelos fãs da saga, Lufa-lufa vira e mexe é deixada de lado. Seja porque seus moradores não são centrais na história contada por Rowling, ou seja porque são tidos como meio bobos, sem sal ou mesmo sem personalidade ou vontade própria. Essa visão dos lufos, porém, é completamente errônea. Nós mesmas, que aqui escrevemos, tivemos dificuldade para aceitar e abraçar nosso lado lufa, mas hoje vamos defendê-lo a todo custo, de uma forma calma, paciente e justa (como se faz na Lufa-lufa).

A Lufa já sai desfavorecida na corrida pelo melhor mascote. Quando um teste do Buzzfeed pede que você escolha um animal com o qual se identifica, imaginamos que o pobre texugo fique bem atrás de um leão, uma águia ou uma serpente. É quase o equivalente a ser do signo Rato no horóscopo chinês. Pois além de não saber apreciar pequenos e adoráveis mamíferos, você está subestimando o potencial de uma verdadeira força da natureza. Texugos são animais inteligentes e notórios por sua força e ferocidade; diante de uma ameaça iminente contra sua segurança, eles não hesitam em atacar. Não é como se fossem sair por aí procurando problema para exibir seus talentos secretos, mas se a confusão chega até eles, os lufos não fogem – alguém lembra da outra casa, além da Grifinória, a comparecer em massa à Batalha de Hogwarts? Um animal que cava túneis na terra é perfeito para representar pessoas que escolhem voar abaixo do radar.

Captura de Tela 2015-05-25 às 14.25.20Cedrico Diggory versus Harry Potter

 

O salão comunal da Lufa-lufa é aconchegante, ensolarado, tem um cheiro gostoso de terra e plantinhas mágicas penduradas no teto. Pense numa toca de hobbit ou na casa da sua avó. A companhia também não é nada ruim. J.K. Rowling estaria esparramada numa poltrona ao seu lado, tomando suco de abóbora e se aquecendo com uma manta de patchwork. A característica primária de lufos é a preocupação com o outro. A gentileza, a bondade e o afeto não surgem no vácuo; esses aspectos estão relacionados à consciência de que todos são dignos de respeito, independente de suas origens ou de suas ações. A definição de Lufa-lufa é empatia. E essa capacidade de compreensão e identificação não se restringe a seus pares, não abrange apenas pessoas que compartilham de seus ideais. Um lufo vai se esforçar para entender conceitos dissonantes e para enxergar o ser humano além da superfície. Caso apresentar uma mente aberta faça de você alguém sem sal e sem personalidade, nós desejamos um mundo bem tedioso para todos.

Sejamos sinceras: quem não quer ser amigo de um lufo? Não há interlocutor melhor para quando você se sente para baixo, incompreendido, traído, ou para quando você precisa, pura e simplesmente, de um abraço. Enquanto os colegas da Grifinória e da Sonserina tentariam te fazer sair e enfrentar o problema na hora (mesmo que você não esteja com nenhuma vontade) e aquele amigo Corvinal insistiria em analisar todos os detalhes (nos quais você já pensou mais do que gostaria), o lufo é o companheiro perfeito para te ouvir, te acolher e restaurar seu bom-humor com uma caneca de chocolate quente (ou cerveja amanteigada) e uma dose de sensatez. Mais do que isso, os lufos são aqueles amigos que você nem pensa de primeira, mas a quem recorre na hora de um aperto – quando o mundo parece desabar, acredite, é um lufo que você deve ter ao seu lado.

Mesmo com todas essas ótimas e inegáveis qualidades, lufos são inteiramente subestimados. Características como heroísmo, ambição ou intelecto acabam sendo muito mais valorizadas – no mundo de Harry Potter e no nosso – do que o afeto e a empatia, em grande parte porque são características que se destacam por serem, de certa forma, mais egoístas. Não que isso as torne piores, mas elas partem de atos individuais muitas vezes com fins próprios, e portanto aparecem com clareza em todas as situações. A bondade dos lufos, por outro lado, está sempre lá, quieta, presente, um cobertor quentinho que você nem percebe que está lá até o momento de crise, em que se torna extremamente necessário.

Por isso, hoje nos declaramos, com orgulho, pelo menos um pouco lufas, e essa escolha só nos fez bem. Aprenda, você também, a reconhecer a importância dos seus amigos lufos, e a existência do lufo dentro de si. Acredite, todo mundo adora lufos (só pouca gente que repara).

Clara é 50% Corvinal, 50% Lufa-lufa, Lorena é 70% Corvinal e 30% Lufa-lufa, e Sofia é um raro caso de 50% Sonserina e 50% Lufa-lufa.

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