26/05/2016 - Por Reflexões

Mais um texto sobre estupro

“acredite em mim,

todas nós desejamos que a guerra tivesse acabado, meu amigo,

mas você está encarando um mundo em chamas

reclamando de como as cinzas são feias.”

Hoje fiquei sem internet a maior parte da tarde, e ela só voltou por volta da meia-noite. Quando abri meu Facebook, só para ver rápido se tinha acontecido algo novo ou interessante, me deparo com texto atrás de texto de amigas e conhecidas falando sobre um caso de estupro coletivo.

30 homens riam e faziam piadas de uma garota desacordada, e se viram tão protegidos, sem medo de punição, tão seguros que o corpo da mulher não importa de verdade, que postaram o vídeo nas redes sociais.

Eu não assisti. Mal consigo ler as descrições do que está acontecendo, mal consigo imaginar a situação, não consegui imaginar essa pobre menina acordando e se deparando com a realidade horrenda de que ela havia sido violentada da maneira que fomos ensinadas a temer desde meninas.

Porque se tem uma coisa que nos ensinam bem, enquanto mulheres, é a temer o estupro. Todo dia chovem conselhos e dicas – não se vista assim, cuidado na rua, cuidado no metro, cuidado com a sua bebida, avise quando chegar em casa. 

Existem um milhão de assuntos dentro da cultura do estupro para explorar aqui: porque esses homens não tiveram medo de postar o vídeo, porque estupro é um ato de ódio e poder e de sexo, porque só mulheres estão falando sobre isso na minha timeline, porque ainda tem gente falando que se ela bebeu, meio que mereceu isso.

Todos esses assuntos merecem ser explorados, mas, em vez disso, gostaria de deixar aqui o meu desabafo em relação a esse caso: fica cada vez mais claro, a cada dia, que homens nos odeiam. Que existe um prazer estrutural da sociedade em destruir, violentar e matar mulheres, que nossos corpos e vontades não importam de verdade, que os horrores que acontecem conosco não são consideradas crimes horrendos como deviam ser.

Então, em contrapartida, fica cada vez mais difícil para mim falar que eu não odeio homens. “Mas nem todos os homens são assim”, eu escuto, lá do fundo, daqueles caras que não sabem ficar quietos. E eu sei disso, mas não consigo evitar de ver esses homens “bons” como exceção – meu irmão, meus amigos,  o menino que eu gosto, certamente não fariam coisas assim, mas fica claro pra mim que eles são pontos fora da linha de uma realidade, porque, durante minha vida e na vida das mulheres que eu conheço, sabemos muito bem que encontrar um cara não-confiável é muito mais fácil do que encontrar um confiável.

(Além disso, sempre fica a dúvida – meu amigo realmente não faria isso? Ele não fez aquela piada, aquela vez, sobre uma garota desmaiada? Será que ele fica realmente horrorizado quando lê sobre esses casos ou dá de ombros e segue com a vida dele? Eles nem lembram que contaram essas piadas, mas mulher não esquece essas coisas)

Não me fale que, para me proteger, eu só preciso não beber, não sair, não me vestir de maneira “provocante”. Mulheres são estupradas em casa, por seus maridos, irmãos, amigos. Mulheres são estupradas no trabalho. Mulheres são estupradas de burca e completamente sóbrias.

E quer saber? Eu fiquei bêbada semana passada, usando uma blusa transparente. Porque eu gosto de beber, e eu gosto da minha blusa transparente, porque é a minha vida, e eu sou um ser humano, merecedor de respeito, que deveria poder confiar que os homens ao meu redor não vão imediatamente olhar para mim e pensar “essa está vulnerável, hora de atacar”.

Mas é impossível confiar. Uma das primeiras coisas que li no início da minha vida feminista foi justamente um texto falando que, enquanto crescemos, nos ensinam a “ter cuidado para não ser estuprada”, mas que, com o tempo, percebemos que nenhuma proteção é o suficiente. Se eu não fui estuprada até hoje, não é porque sou boa em me proteger, é porque tive sorte.

Então, sim, no geral, cada vez mais eu odeio homens, porque eu tenho medo de homens, porque eu sei que estudos indicam que um em seis homens são estupradores. Um. Em. Seis.

Então, na minha perspectiva, em um vagão de metro tem dezenas de estupradores. Na minha sala de aula. No meu trabalho. E, eu sinto dizer, mas a segurança das mulheres é mais importância do que os sentimentos dos homens que ficam chateados de serem considerados “estupradores em potencial”.

Então, agora eu falo com as meninas do mundo – amigas, tudo bem se vocês tem medo de homem, se odeiam homem, se também cansaram de ficar explicando porque o feminismo não quer acabar com eles, porque eles também se beneficiam com ele. Já deu, ninguém aguenta mais explicar, se defender, dizer que não odeia homens quando está chovendo motivos para odiar. Se nós temos raiva, frustração, vontade de chorar porque estamos sendo mortas, machucadas e estupradas, a reação do mundo deveria ser “realmente, precisamos parar de machucar as mulheres, isso é absurdo”, e não “nossa, que absurdo, sua feminazi, não use fogo contra fogo”.

Sabe o que é mais interessante? Quando mulheres odeiam homens, nós geralmente nos afastamos deles, nós evitamos seus espaços, nós nos cercamos nas nossas comunidades.

Quando homens odeiam mulheres, eles nos procuram para nos fazer pagar.

Então, desculpa se esse texto não diz nada que a gente não sabia, nem chega a nenhuma conclusão, mas fica difícil encontrar soluções e falar em “vamos todos nos ajudar” quando claramente o mundo não está preocupada em ajudar as mulheres. Deixo vocês com alguns dados deprimentes sobre a situação do Brasil. Se quiserem ler mais dados para ver como o resto do mundo não está melhor, esse texto tem vários.

A cada 24 segundos uma mulher é agredida no Brasil;

38,72% das mulheres em situação de violência sofrem agressões diariamente; para 33,86%, a agressão é semanal.

A violência doméstica é a principal causa de morte e deficiência entre mulheres de 16 a 44 anos de idade e mata mais do que câncer e acidentes de trânsito;

Mais de 40% das ações violentas resultam em lesões corporais graves decorrentes de socos, tapas, chutes, amarramentos, queimaduras, espancamentos e estrangulamentos;

O número de estupros registrados no Brasil em 2012 foi maior que o de homicídios dolosos (quando há intenção de matar),

Segundo o IPEA, no Brasil, no período de 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil feminicídios, o que equivale a, aproximadamente, 5.000 mortes por ano.

PS: é, no mínimo, emblemático que no mesmo dia que esse caso chegou a nós, Alexandre Frota, que admitiu em rede nacional o estupro de uma mulher, foi convidado pelo Ministro da Educação para discutir a educação no Brasil.

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