07/08/2014 - Por Reflexões

Meninas são minhas amigas

Minha priminha de 5 anos é uma das pessoas mais espertas que eu já conheci. Às vezes, eu acabo esquecendo que ela é tão nova. Ela teima em fazer tudo sozinha e, se ela não sabe como faz, insiste em descobrir como fazer. Há algumas semanas, estávamos conversando sobre sua escolinha, seus colegas e sobre como ela é brincalhona e gosta de zoar todo mundo por lá.

Eu: Ah, você gosta de tirar sarro de todo mundo ein?!

Ela: Eu não tiro sarro de meninas.

Eu: Não? Você tira sarro de quem?

Ela: Tiro sarro só de meninos. Porque ele são meio tontinhos.

Eu: E por que você não tira sarro de meninas?

Ela: Porque meninas são minhas amigas. Elas não são tontinhas.

 

Seu comportamento de senso de comunidade e proteção às amiguinhas me deixou extremamente orgulhosa. Por mais triste que possa parecer, a rivalidade entre mulheres existe desde essa idade. Desde pequenas, nos ensinam que somos nossas próprias inimigas. Nos aprisionam à ideia de que essa era uma resposta “natural” de competitividade entre duas mulheres que querem a mesma coisa. Nos dividem em categorias, ou lados, se preferir, para que estejamos sempre umas contra as outras. Jamais unidas. A inveja e o rancor alimentam esse ódio. Esse diálogo me fez lembrar de um episódio que aconteceu há alguns anos comigo. Houve um tempo no qual eu desconhecia o significado de “feminismo”. Possivelmente, naquela época, eu criticava meninas que beijavam mais de um menino numa noite e julgava as que tinham transado com um cara que não era seu namorado. Por uma série de motivos, eu reproduzia discursos machistas, mesmo que eles não me beneficiassem em nada. Mas, dentre todos esses motivos, um eu considero o combustível do patriarcado. O ódio entre as mulheres.

 

De fato, eu achava que tinha uma inimiga.

m1

 

Achava que ela me odiava, me provocava, queria “roubar” alguma coisa de mim. Ela invejava minhas conquistas e eu, as dela. Não que as conquistas dela tornassem inválidas as minhas, ou vice-versa, mas nós automaticamente nos odiávamos, sem algum motivo aparente. Porque éramos diferentes? Porque éramos parecidas? Jamais vou saber claramente. Essa relação amarga se estendeu durante o par de anos que tivemos em comum no colégio.

Até que um dia, chegou até mim uma fofoca que tinham espalhado na escola. Fulano, que havia sido meu amigo, dissera algumas calúnias aqui e acolá sobre mim a uma roda de colegas. Ele me humilhou e desmoralizou na frente daquelas pessoas, para se sentir mais forte. Me senti diminuída, completamente desorientada, quando soube das mentiras que ele contara sobre mim. Por que alguém que eu considerava meu amigo havia feito aquilo comigo? Por que ele achava engraçado meu sofrimento?

Lembro-me de não conseguir sair para o intervalo naquele dia, por sentir medo e vergonha do que podiam estar dizendo sobre mim. Pouco antes da aula começar, a garota chegou até minha mesa, puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado. Ela estava na roda de pessoas que ouviu o garoto dizer mentiras sobre mim. Ela suspirou e olhou em meus olhos.

 

“Olha, eu sei que a gente nunca se deu super bem. Sei que até chegamos a ter alguns conflitos. Mas eu queria dizer que você não precisa se sentir assim. Não se culpe ou se puna por algo que você não fez. Aquele cara é um imbecil, um escroto e ninguém acreditou no que ele disse. Fiquei muito brava com ele, que não entendeu minha reação. ‘Ué, você nem gosta dela’, ele disse. Como se isso significasse que eu deveria deixar ele atacar você e te humilhar. E olha, mesmo que aquelas coisas fossem verdade, ele não tinha o menor direito de sair espalhando por ai. O único errado nessa história é ele. Você pode vir conversar comigo, se quiser, tá?”.

 

Conforto. Essa era a única intenção dela comigo naquele momento. Ela queria que eu me sentisse melhor. Algo que um cara que se dizia meu amigo ignorou fazer, durante anos. Algo que muitas de minhas amigas não souberam como expressar. Depois daquilo, nossa relação mudou muito. Não vou dizer que nos tornamos amigas, mas o clima entre nós duas foi outro. Um clima que eu gosto de chamar de respeito e empatia. E digo que a experiência é libertadora, essa de não odiar os outros de forma injustificada, muito menos odiar as outras. Desde então, valorizo muito essa relação de proteção entre mulheres. É importante valorizarmos esse respeito, uma vez que somos criadas para torná-lo inexistente. Sempre vou achar lindo quando minha priminha ou qualquer outra garota me disser que protege suas amigas. Ressaltando que não acho legal sermos contra meninos. Mas acho incrível sermos pró-meninas!    

Tags:,

Comentários