24/09/2014 - Por Reflexões

Menstruação e fertilidade algemadas

As tristes consequências da nossa relação deturpada com nosso ciclo menstrual

Quando o sangue me escorreu por entre as pernas pela primeira vez, minha família já estava receosa que poderia haver alguma coisa errada comigo, porque todas as primas mais novas já haviam menstruado, e eu, prestes a completar 15 anos, com pouco peito, quadril estreito, meu corpo não parecia querer virar mulher.

E penso que eu rejeitava tanto essa idéia de virar mulher, que a menstruação vinha só a cada 3 meses, com cólicas infernais. Minha mãe pouco sabia o que fazer sobre o assunto, pois mal se lembrava de como era menstruar na adolescência, como se sua memória tivesse suprimido algo pela falta de ser falado à respeito.

O local óbvio para lidar tudo isso foi o consultório médico. A matemática simples foi: menstruação dolorosa e irregular + acne das feias + medo meu e dos meus pais de eu engravidar = pílula anticoncepcional. Quando a essa equação somou-se a enxaqueca braba antes da menstruação, o resultado final virou uma cartela atrás da outra para suprimir a menstruação.

Eu não ovulava nem menstruava já aos 21 anos de idade, o que parecia ser perfeito para uma recém-formada prestes a arrebatar o mercado de trabalho. Afinal de contas, no mundo corporativo só sobrevivem os fortes, e uma mulherzinha fragilzinha jamais daria conta do recado se não aprendesse a agir como um macho, ou seja, sem as frescuras da menstruação.

Eu acreditava piamente que eu deveria agir como homem o máximo que eu conseguisse. Anos depois, já em terapia entendi o porquê. De alguma forma, capturei desde criança que mulheres são seres fracos, que sofrem muito na mão dos outros, instáveis e incoerentes, a mercê das próprias emoções, e do destino que lhes obriga um corpo cheio de ameaças.

Difícil viver consigo mesma quando você vira sua maior inimiga. Era tão raro eu encontrar alguma mulher que ficava feliz por menstruar, ou que dizia palavras bonitas sobre o próprio corpo, ou que não tomava anticoncepcional, ou que não tinha medo de engravidar, ou que não havia engravidado “cedo demais” e a vida havia virado um caos, ou que não era mal falada por qualquer uma dessas coisas.

Ser mulher é ter nascido errado. A menstruação atrapalha a produtividade, a vida social, a performance sexual. A fertilidade atrapalha porque pode ser inconveniente engravidar, ou, como muitas mulheres sofrem hoje, não funciona na hora que queremos. Acho que deu para perceber uma relação de causa e conseqüência nessa história, não é mesmo?

O número de mulheres com algum tipo de distúrbio do sistema reprodutivo está alarmante. A começar pela TPM quase onipresente entre as mulheres em idade fértil, que inclui também as que usam anticoncepcionais, passando por ovário policístico, cistos nos ovários, miomas, endometriose, infertilidade, e até câncer. Tem muitas causas fisiológicas para isso estar acontecendo, mas não há como ignorar mais o impacto profundo de acreditarmos que nosso corpo só nos causa problemas, vergonha, sofrimento.

Nosso corpo parece estar contra nós pelo simples fato de que fomos ensinadas a acreditar que ele precisa ser concertado, modificado, medicado, escondido porque ele nasceu feio, fraco, doente, pecaminoso.

Só fui aprender que o organismo de uma mulher funciona em ciclos, que sua força, suas habilidades, seu humor, seu nível de energia e tudo mais vai mudando ao longo dos dias, e que esse processo é absolutamente natural e essencial para seu pleno funcionamento, há pouco tempo, depois de ter passado metade da minha vida fértil lutando contra meu próprio corpo.

Claro, eu aprendi nas aulas e livros de ciência a parte fisiológica da história, mas ninguém nunca havia me ensinado a parte mais importante: como eu verdadeiramente cuido de tudo isso, como eu posso amar tudo isso, como eu posso usar tudo isso a meu favor.

Me entristece quando vejo meninas, adolescentes e mulheres de todas as idades reclamando e até xingando o próprio corpo, porque ele não parece ou não funciona como os outros dizem que ele deveria ser ou funcionar.

Me entristece quando vejo elas envergonhadas ou com nojo de seus processos fisiológicos naturais, como o sangue menstrual e o cheiro e o muco da fase ovulatória, sofrendo sozinhas e caladas com seus sintomas, se condenando porque não tem vontade de fazer sexo todo dia, ou porque tem dias que quer fazer sexo toda hora.

Me entristece a forma como desmerecemos a mulher com suas variações de humor, principalmente durante a TPM, como se fossemos loucas histéricas incapazes, sendo que, na verdade, esse julgamento é fruto de uma cultura machista que premia quem ignora e suprime as próprias emoções, até isso virar uma doença mental ou do corpo.

Me entristece quando vejo as mulheres ainda enxergando o anticoncepcional como sua única escapatória da “inconveniência” e sofrimento da fertilidade ou da menstruação, quando há tantas outras opções e possibilidades muito mais eficazes e empoderadoras de viver em seu corpo de mulher

Sonho com o dia que as meninas serão ensinadas desde cedo, pelas mulheres de sua vida, que seu corpo é belo e mágico, que ao invés de temer sua menstruação e ovulação, elas serão encorajadas a enxergá-las como momentos de grande poder e protagonismo.

 

Melissa Setubal é coach de saúde da mulher, e voltou à adolescência aos 31 anos de idade, quando deixou de lado o anticoncepcional e resolveu aceitar e celebrar seu corpo de mulher, e voltar a ovular e menstruar naturalmente. Por isso, hoje, ela apoia as mulheres a tornarem a alimentação e as emoções suas melhores amigas. Confira mais conteúdos sobre alimentação, ciclo menstrual e autoconhecimento, e sobre seu Sistema Ame-se por Inteiro em www.melissasetubal.com.br

 

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