06/04/2017 - Por Reflexões

Mexeu com as minhas, mexeu com todas

Semana passada assisti ao filme Estrelas Além do Tempo. É um filme maravilhoso, que recomendo a todos, sobre três mulheres negras que batalharam contra o racismo e o sexismo na NASA durante o período da corrida espacial. O filme me emocionou muito, me apresentou mulheres incríveis que eu não conhecia e me mostrou, mais uma vez, a importância de considerar as intersecções de raça quando falamos de feminismo.

Dando o mínimo de spoilers possível, em uma cena, uma mulher branca diz a uma das protagonistas negras: “Eu sei que é difícil de acreditar, mas eu não tenho nada contra vocês”. A mulher negra sorri, toda benevolente e diz antes de dar as costas e sair: “Eu sei que você provavelmente acredita nisso”.

Eu tive até que pausar o filme, de tão impactante que achei essa cena.

Mas bem, o que isso tem haver com qualquer coisa? Imagino que nesse ponto todas já ouviram da campanha “Mexeu com uma, mexeu com todas”, que surgiu como um esforço de atrizes globais contra o assédio após as denúncias feitas contra o ator José Mayer. A campanha ganhou força e eu não podia deixar de falar sobre o assunto, mas queria, como sempre, sair dos campos gerais de “yey, empoderamento” para trazer um pouco mais para a realidade a discussão.

A campanha é incrível, claro, na medida que une mulheres numa situação que claramente dá forças a todas. Denúncias de violência realmente tendem a ser experiências solitárias, com muitas pessoas desacreditando a vítima e preferindo dar voz a versão dos agressores, então é importante um movimento que se une diante disso.

Porém, estou vendo muitas pessoas repetindo o mote “Mexeu com uma, mexeu com todas” como algo fácil e descomplicado, que realmente praticam nas suas vidas diárias. Pois bem, dentre essas pessoas, quantas falaram algo quando uma jovem negra de 13 anos foi assassinada pela PM dentro da escola? Diante da violência contra transexuais e travestis, quem se ergue? Qual foi a última vez que você ouviu “sapatão” sendo usado como xingamento e disse algo?

Não me entenda mal, não digo isso para causar mal estar ou problematizar só por problematizar. Como mulher branca, muitas vezes me pego presa nas garras do feminismo branco, dando atenção a causas “que atingem a todas”, esquecendo de dar o foco necessário para as intersecções com outras opressões. E é essencial dar esse foco, porque se não, me vejo defendo apenas as causas que me afetam diretamente, apenas aquelas que vejo claramente no meu dia a dia – e com base em textos e grupos feministas que sigo, muitas mulheres cometem esse mesmo erro. Então, não se torna verdadeiramente uma defesa de todas as mulheres mas apenas daquelas mulheres com vivências iguais as minhas – como intitulei esse texto, se torna uma coisa de “mexeu com as minhas, mexeu com todas”.

Como a vida é cheia de coincidência, no dia que comecei a escrever esse texto, participei de um Seminário de Mulheres em foco no Audiovisual – uma das participantes era Juliana Vicente, produtora, diretora e fundadora da Preta Portê Filmes. Relembrando a última semana, Juliana comentou essa hashtag e disse que sentia falta da discussão sobre o assédio racial, que mata todos os dias – ver atrizes brancas falando sobre o assédio pode até dar visibilidade ao tema, mas não compreende a realidade complexa dessa violência e como ela atinge as mulheres brasileiras de maneiras diferentes também.

Nenhuma discussão superficial é o suficiente – não acredito em dizer “mas estamos no caminho”. Podemos até estar indo em direção a discussões mais profundas e verdadeiras sobre a violência feminina, mas enquanto não chegarmos lá, não é o suficiente, e é o nosso dever, como feministas, cobrar que qualquer tema venha acompanhado de reflexões sobre as intersecções de raça, sexualidade e classe social, para citar algumas – cobrar, não apenas dos outros, não apenas da Globo e dos jornais, mas também e principalmente, de nós mesmas.

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