10/06/2014 - Por Reflexões

Minha namorada é feminista (e isso é um elogio)

Para comemorar o dia dos namorados, a equipe NAQ queria explorar os relacionamentos dentro de uma perspectiva feminista! Para isso, convidamos as pessoas mais próximas que tínhamos – nossxs proprixs namoradxs!

Acompanhe o texto de ontem aqui.

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I

Eu e mais dois colegas organizamos kits para um evento no trabalho. É um trabalho de algumas horas, meio chato, que amenizamos com música e conversa.

Um deles fala que não tem nada contra o homossexualismo, e que o ator x é que está certo porque ele não parece gay. Pode ser gay, né, desde que não pareça. Não precisa ser afeminado.

Eu falo que a homossexualidade pode ser vivida do jeito que a pessoa quiser, e que parecer hétero não é o único caminho. E falo que ao falar assim de gays afeminados vs gays masculinizados, ele está dizendo que ser efeminado é ser ruim, que ser mulher é ser ruim.

Ele olha pra mim, meio confuso e meio acuado. Com certeza não esperava que alguém fosse discordar. Não, ele discorda na mesma hora. Eu não disse isso.

Decido escolher minhas batalhas. Não estou exatamente fora do armário nesse ambiente, que não percebo como seguro.

Não é a primeira coisa homofóbica que ouço naquele dia. Inspiro, limpo minha mente, expiro.

Sinto falta da minha namorada, e dos meus amigos, e penso em todas as discussões e protestos e textos e experiências, tão mais interessantes que as micro-agressões que vivencio todo dia.

Volto a dobrar folders.

II

O gênero é construído todo dia. Reconstruído. Reinterpretado. Ressignificado.

Mordo a língua quando alguém fala que “homem é assim mesmo” numa discussão de almoço. Que “ah, mas homem é diferente de mulher.” Mordo a língua de novo.

É porque querem que seja assim, quero dizer. O mundo podia ser diferente.

À noite, falo sobre gênero e performance e a falsidade do binário do sexo biológico com a minha namorada. Menciono um livro que estou lendo sobre mulheres negras e discutimos a intersecção de opressões.

Assistimos Malévola. Eu choro no final, porque esse é um filme de mulheres, de mulheres que se apoiam e se amam, com homens reduzidos a vilões ou secundários.

Discutimos por horas: as implicações, as analogias, o machismo estúpido do conto original – o que são os presentes das fadas boas senão prisões machistas ao estereótipo da boa mulher? O príncipe beijar uma mulher em coma não está certo, é estupro – antes de dormir.

Meu peito expande, livre do peso que carreguei o dia inteiro. O universo faz um pouco mais de sentido.

III

Perco peso. Parabéns, me dizem.

Obrigada, mas não é meu aniversário, eu respondo.

Eu devia segurar minha língua, gordofobia ecoa na minha cabeça sem parar.

Não é uma história de superação e vitória. Não sou um exemplo pró-emagrecimento.

Falo para minha namorada que perdi peso. Ela não sorri, ou me pergunta o que eu fiz, contente. Ela não quer saber meu segredo. Ela olha nos meus olhos e fala: “Isso é bom? Você se sente bem com isso? Seu joelho tem melhorado, então?”

Meus ombros relaxam. “Sim,” eu falo. “É bom.”

IV

Meu cabelo era bem curto. Agora os cachos caem livremente, encostando na minha mandíbula, no meu pescoço. Eles crescem rápido, e a última prioridade da minha vida é ir ao salão.

Pergunto para minha namorada o que ela prefere: curtinho ou assim, do jeito que está. Ela não hesita: “O corpo é seu, meu amor. Você faz o que quiser com ele.”

Pergunto das minhas roupas, da minha depilação. A resposta, sempre: “Gosto de você de qualquer jeito.”

Minha namorada é feminista.

Maíra Carvalho

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