15/05/2014 - Por Reflexões

Mulher dos Sonhos

Olá, revistas!

Há mais ou menos dois meses, alguma amiga me mandou um artigo de beleza sobre tratamentos estéticos para a pele. Confesso que nunca fui fã de acompanhar esse tipo de conteúdo, mas que aquela matéria me encantou com as possíveis soluções para minha pele seca e cansada ganhar vida e maciez. Na matéria, era exibida a foto num close do rosto da belíssima Scarlett Johanson, indicando os resultados “dos sonhos” que qualquer mortal poderia alcançar. Ainda hoje estava na sala de espera de uma clínica, aguardando meu horário para receber o tal tratamento estético.

Enquanto esperava, folheei inúmeras de suas páginas, num punhado de revistas de moda e comportamento, iguaizinhas entre si. Os assuntos eram os mais homogêneos possíveis, variando entre 34 posições que enlouquecem os homens na cama, a 3 tipos de cachos que tornam você em uma diva. Vocês devem estar se perguntando como sexo e cabelo podem ser classificados dentro de uma mesma categoria homogênea. Digo isso porque eu, como mulher, ouvia aquelas letras garrafais e imperativas empurrando ordens sobre quem eu deveria ser, ou o que eu deveria fazer para cumprir com a tarefa básica de qualquer mulher: ser encantadora e irresistível. Todos aqueles artigos existiam pelo mesmo propósito de me dizer que eu estou fazendo alguma coisa errada e que preciso me corrigir.

Quem me conhece sabe muito bem das inseguranças que tenho comigo mesma, fruto dessas normas que começamos a receber desde que somos crianças. Mas, ao ser bombardeada por todas aquelas chamadas histéricas para que eu fosse a mulher “dos sonhos”, gostei de mim mesma, num tanto que eu jamais havia gostado. Percebi que devia escrever a vocês, carrascas de autoestima e confiança feminina, para avisar que não acredito em seu discurso, porque eu e todas nós já somos lindas.

Enquanto nos distraem dizendo que somos feias, somos imperfeitas e, vejam só que absurdo, que somos REAIS, a nossa identidade é dissolvida, vamos lentamente nos tornando um ser repleto de insatisfações e frustrações, que precisa consumir para se completar, para se encontrar. Porque no mundo lá fora, sempre vai faltar um pedaço pra mulher se tornar mais mulher. A insegurança nos enfraquece e esse é o intuito. Sermos prisioneiras de verdades manipuladas por um sistema cruel, que exibe a perfeição de divindades como troféus para indicar como a mulher “dos sonhos” deve parecer. Perfeição que nem mesmo essas divindades têm de verdade. Ao nos empurrar padrões goela abaixo, promovem em nossas mentes uma busca incessável para que nos tornemos, finalmente, a mulher “dos sonhos”. Uma busca um tanto rentável, eu me atreveria a dizer…

Talvez como um contra-ataque a todos esses anos nos quais vivi tentando me enquadrar nas regras do sistema, a todos os anos de gente me dizendo como meu corpo devia parecer e isso ter afetado muito na maneira como eu me enxergo, minhas características tão peculiares e tão minhas passaram a ser minhas favoritas em todo o universo. Minhas pernas meio tortas e nada torneadas, meus cabelos embaraçados e desbotados, meu sorriso com dentes amarelados e desiguais, meu olhar com bolsas e olheiras, meus seios assimétricos, minha bunda com estrias e celulites, minhas unhas quebradas, minha boca ressecada, minha pele um pouco manchada, minha barriga um pouco saltada e, principalmente, minha língua um tanto afiada.

Escrevo para dizer que me orgulho de quem eu sou. E que me envergonho às vezes, quero esconder, quero mudar, mas eu sempre me lembro que não devo acreditar em vocês e suas dicas baratas. Lembro de tudo que sou além de linda e que isso é o que realmente importa. Lembro-me que beleza não é atributo único e primordial da existência feminina. Ser linda vai além da pele hidratada e das madeixas bem cuidadas e tem um significado diferente do que vocês ensinam para as pessoas. Porque ser linda é, antes de qualquer coisa, ser a mulher de seus próprios sonhos.

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