09/05/2017 - Por Reflexões

Não podemos esquecer que existe uma Escola de Princesas

*Esse texto foi publicado originalmente no blog Ética de Bolso. Você pode conferir aqui.

Em outubro do ano passado São Paulo acolheu a tão famosa “Escola de Princesas” e, antes mesmo da inauguração dessa, a “escola” virou objeto de muita polêmica. Afinal, em meio a tantas discussões sobre o movimento feminista, papéis de gênero, liberdade da mulher e rompimento de estereótipos, a chegada de uma escola que ensina para meninas que existe uma única maneira correta de se comportar é no mínimo questionável.

A escola recebe alunas entre 4 e 15 anos e é possível conferir todas as modalidades de cursos, workshops e eventos oferecidos através do site; resumidamente, a escola se propõe a ensinar para meninas questões como identidade, valores e princípios, relacionamentos, etiqueta, como se comportar em festas, almoços, jantares e eventos, estética, moda, cabelo, maquiagem, organização pessoal e da casa, corte e costura, culinária, lavanderia, primeiros socorros, como se guardar para o “príncipe encantado”, matrimônio e como ser a mulher “eterna” ou a “passageira”.

Como Simone de Beauvoir nos mostrou – por citar apenas uma das mais emblemáticas pensadoras do século XX – ser mulher não é uma questão biológica e sim uma construção social e cultural. Como toda construção, tem um objetivo: delimitar o lugar e o papel da mulher na sociedade. Nesse sentido, é preciso ficarmos cada vez mais atentos ao que estamos ensinando para as crianças e, principalmente, para as meninas.

A “Escola de Princesas” tem tantos falhas, em tanto que um espaço que contribua para uma sociedade mais ética e igualitária, que não teríamos condições de analisarmos em profundidade de cada um eles. Fiquemos, pois, com apenas alguns, tais como propor para meninas entre 4 e 15 anos de idade um modelo ideal e “correto” do que é ser mulher, ou a submissão explícita aos valores que reforçam a dominação masculina. Em um momento onde a liberdade e o empoderamento feminino está cada vez mais em pauta, não cabe mais ensinar para as meninas que existe uma única maneira correta de se relacionar com os outros, de se comportar, que ela deve esperar a chegada de um “príncipe” e que o matrimônio e a maternidade são regras a serem seguidas. Atenção: antes que se desatem polêmicas estéreis, que fique claro que feminismo não é o inverso do machismo ou a substituição da dominação masculina pela feminina. É, simplesmente, a luta pela igualdade. Uma luta pela ética. Pela liberdade de arbitrar o próprio destino em igualdade de condições. Uma luta para que ninguém seja considerado um ser de segunda categoria em função do seu gênero.

Quando uma escola se propõe a ensinar como organizar um lar, como cozinhar, lavar, passar e costurar; quando essa mesma escola não aceita meninos, as crianças que frequentam esta instituição estão aprendendo que, acima de tudo, tais atividades são responsabilidades femininas, que os cuidados com a casa devem ser feitos somente pelas mulheres.

A necessidade de problematizarmos esse tipo de ensino é urgente. Educar meninas, desde os seus 4 anos de idade, a fim de que elas aprendam a se comportar com delicadeza, a cuidar da casa e da aparência para, finalmente, se casar com o “príncipe encantado” e ter filhos, por mais lícito que seja é imoral na medida em que contribui para reafirmar posturas de que existiria uma divisão sexual do trabalho (e do mundo), jogando no ralo todas as conquistas pela igualdade e liberdade de escolha sobre os seus destinos que as mulheres tiveram ao longo dos anos.

Há quem pergunte: mas qual o problema de uma menina querer ser princesa, querer ser dona de casa, querer se casar e ser mãe? A resposta é: nenhum! O problema é quando essas são as únicas coisas ensinadas e as únicas opções dadas para as meninas. O problema é quando esses assuntos são ensinados e cultivados somente entre as meninas, reforçando tais caminhos como opções “naturais”.

Por isso, não podemos esquecer desse assunto. Não podemos deixar de problematizá-lo ou fazer como grande parte da mídia que o etiquetou na caixinha do “folclore nacional”. É preciso continuarmos com a discussão dos papéis de gênero e romper todas as barreiras que impedem que a mulher seja livre para ser e fazer o que quiser.

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