20/09/2017 - Por Reflexões

Não se cura o que não é doença

No dia 18, um juiz do DF, movido por ação popular, aprovou liminar que permite o tratamento da homossexualidade como doença por psicólogos, tratamento que o Conselho de Psicologia proibiu em 1999 e a OMS considera inapropriado desde 1990.

Isso quer dizer que, mais de 18 anos depois da conquista de um direito básico – não ser submetido a tratamento por algo que não é doença – nos vemos lutando a mesma luta. De novo.

É frustrante, sem dúvida. É uma questão que vemos sempre em movimentos com minorias – toda vez que acho que vamos ter uma discussão sobre o aborto, surge gente que quer proibi-lo até em casos de estupro; toda vez que a comunidade negra acha que conquistou mais espaço em universidades e empresas, uma criança morre a tiros por policial; quando a comunidade LGBT dá um passo a frente, isso acontece. É uma lembrança constante da sociedade: Vocês não estão seguros. Não podem relaxar. Não vamos deixar o mundo mudar.

Na mesma semana, a série do Netflix, Black Mirror, ganhou o Emmy de melhor episódio com a história de duas mulheres que se apaixonam e, encontram, uma na outra, a possibilidade de uma nova vida. É um dos poucos – se não for o único – episódio dessa série com um final relativamente feliz. É uma pequena vitória, mas algo que nos faz pensar que as histórias LGBT, não só as tragédias, mas também as alegrias e amores, estão ganhando espaço.

É quase esperado então, que surja gente querendo voltar no passado. Vemos isso no movimento neo-nazista ganhando força nos EUA principalmente, mas no mundo em geral, querendo a volta de políticas conversadoras, expulsão dos refugiados, isolamento de gays, negros, judeus.

Tudo que é diferente do homem branco hétero e cis precisa ser afastado. Destruído. Consertado.

Eles querem tornar a sociedade um lugar tóxico para qualquer um considerado “diferente” – e estão conseguindo porque, poucos dias antes de tudo isso, no Rio de Janeiro, um amigo meu chega de manhã na praia com a triste notícia de que ele e o namorado tinham sido atacados com pedras na noite anterior por um grupo de homens na rua.

Talvez fosse mais fácil, nesse contexto, se esconder. Se encolher em lugares cada vez menores, com cada vez mais discrição, tentando não atrapalhar quem enxerga a sociedade como “deles”. Mais seguro até, talvez, para nós mesmos.

Mas assim nada muda. Assim a sociedade continua empurrando para as margens tudo que considera errado e nossos espaços diminuem cada vez mais até não termos mais para onde ir. Até termos um mundo cinza, chapado, onde só sobrevive o que eles consideram aceitável. A luta é diária, constante, cansativa, cheia de sacrifícios. Significa violência, perdas, lágrimas. Mas sem ela, não chegamos a lugar nenhum.

Toda vez que me desespero lembro de uma entrevista de Gerda Lerne, historiadora feminista que diz, em tradução livre: “Ninguém deu às mulheres nada. Eu fico furiosa quando dizem que os homens deram o direito do voto às mulheres. Foi necessário 72 anos de esforço organizado, constante e implacável para conseguir o voto”.

Ninguém vai dar direito nenhum para a comunidade LGBT ou para qualquer minoria – vão tentar tirar todos que puderem, da maneira que conseguirem. Mas a sociedade só vai mudar se fizermos ela mudar – desistir não é uma opção se queremos que o amor e a diversidade ganhem essa luta.

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