Não sou sua esposa, sua irmã ou sua filha

Esse texto é uma tradução e adaptação de um do texto do blog The Bell Jar. O original, completo e em inglês, pode ser encontrado aqui: http://bellejar.ca/2013/03/18/i-am-not-your-wife-sister-or-daughter/

Eu tenho que te dizer que você precisa parar de usar o argumento “esposas, irmãs, filhas” quando você está falando com pessoas que estão defendo algum estuprador. Na verdade, que estejam defendo qualquer tipo de crime, violento ou não, cometido contra uma mulher.

Se você não conhece esse argumento, ele funciona assim:

“Você deveria parar de defender o estuprador e começar a se importar com a vítima. Imagine se ela fosse sua irmã, sua filha ou sua esposa. Imagine com você ia se sentir mal se isso acontece com uma mulher que você amasse.”

Enquadrar o problema dessa maneira para defensores de estupradores pode parecer útil. Eu entendo isso totalmente. Dá a sensação que você está humanizando a vítima e tornando o acontecimento mais fácil próximo e real para a pessoa com quem você está discutindo.

Sabe o porém? Dizer coisas como essa não ajuda na discussão; na verdade, não ajuda nem a humanizar a vítima. O que você está fazendo é ajudando a perpetuar a cultura do estupro, apoiando a ideia de que uma mulher só é valiosa se um homem se importa com ela.

A vítima de Steubenville [caso famoso de estupro dos Estados Unidos]  certamente era filha de alguém. Ela talvez fosse irmã de alguém. Talvez um dia ela seja esposa. Mas esses não são os motivos de porque foi errado estuprá-la. Esse estupro, qualquer estupro, foi errado porque mulheres são pessoas. Mulheres são pessoas, estupro é errado, e ninguém jamais deveria sofrer com esse crime. Final da história.

O argumento “esposas, irmãs, filhas” aparece o tempo todo. Até o presidente Obama o utilizou em um de seus discursos em 2013, dizendo:

“Nós sabemos que nossa economia é mais forte quando nossas esposas, mães e fillhas podem viver suas vidas livres na discriminação no ambiente de trabalho, e livres do medo da violência doméstica.”

Esse artifício é simplório ao extremo. Ele define mulheres pelos seus relacionamentos com outras pessoas, ao invés de como simplesmente pessoas. Ele diz que mulheres só são importantes quando estão casadas, deram a luz ou foram criadas por outras pessoas. Ele diz que mulheres só são importantes por causa das pessoas a quem elas pertencem.

Mulheres não são objetos.

Mulheres são pessoas.

Eu não acredito que eu ainda tenho que dizer isso.

Além de tudo isso, eu quero que você pense nas outras implicações que esse artifício retórico tem. Para começar, e as mulheres que não são esposas, mães ou filhas de ninguém? O que isso diz sobre as meninas presas em orfanatos? O que isso diz de pequenas garotas cujas famílias a entregam ao estado? O que isso diz mulheres que abandonam suas famílias biológicas por qualquer razão que seja?

Que elas merecem ser estupradas? Que elas não são merecedoras de proteção? Que elas não merecem simpatia, empatia e amor?

E quando colocamos todas as mulheres como “esposas, mães ou filhas”, o que sequer estamos ensinando a jovens meninas?

Estamos ensinando-as que, para ter a lei do lado delas, elas precisam ser amadas por homens. Que elas precisam se tornar atrativas parahomens para que se tornem merecedores de proteção. Que suas vidas e a integridade de seus corpos não tem valor exceto na maneira como se relacionam com os homens que elas conhecem.

A verdade é que eu sou a esposa de alguém. Eu sou a mãe de alguém, filha de alguém e irmã de alguém. Mas essas não são coisas que me definem, ou que fazem de mim valiosa para o mundo. Esses não são as razões pelas quais eu mereço viver a minha vida livre de estupro, assédio sexual ou qualquer outro crime violento.

Eu tenho valor porque não uma pessoa. Ponto final. Fim do argumento. Isso não é nem uma discussão que deveríamos estar tendo.

Então, por favor, vamos começar a ensinar isso para as jovens mulheres das nossas vidas. Ensiná-las que elas são amadas, respeitadas e valiosas por quem elas são. Vamos ensiná-las que elas devem exigir ser tratadas com integridade porque é direito humano básico. Ensiná-las que elas não merecem ser estupradas, porque pessoas nenhuma, nunca, merece ser estuprada.

Acima de tudo, vamos ensiná-las que elas são pessoas também.

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