09/05/2017 - Por Reflexões

Nem sempre o Dia das Mães é uma data feliz

Que texto difícil de escrever, decidi que quero fazer isso e me sinto preparada, mas não sei por onde começar.

Com mais um Dia das Mães se aproximando e mais um ano vendo várias campanhas, textos, vídeos, ou qualquer outra coisa que seja, falando sobre o quanto os filhos amam as mães e o quanto elas são as melhores pessoas do mundo, decidi que chegou a hora de mostrar outro lado desse relacionamento.

Nos últimos anos, descobri que esse relacionamento também pode ser abusivo e muito recentemente descobri que essa é a definição exata para o meu. Ainda não sei o que fazer com essa descoberta, não sei o quanto consigo me afastar. Talvez algumas pessoas pensem que eu sou exagerada, dramática ou egoísta. Tudo bem, não vai ser a primeira vez, mas acho bom deixar claro que depois de muito tempo me sentido mal por tudo isso e acreditando em tudo isso, eu não acredito mais. Eu sei que não sou nada disso.

Alguns anos atrás li um texto que falava sobre um relacionamento difícil entre mãe e filha. Acho que chegou a hora de escrever sobre o meu.

Realmente não acredito que a minha mãe seja uma pessoa ruim, eu acho que ela é uma pessoa que passou a vida guardando vários problemas e várias frustações para ela mesma e de repente explodiu de determinada maneira que agora é impossível se recompor totalmente.

Ela engravidou cedo. Também casou cedo, afinal, ela estava grávida e não via outra possibilidade a não ser casar. Ela foi criada para isso, para casar, ter filhos, cuidar da casa… Só que essa vida talvez tenha começado cedo demais, antes dela descobrir o que realmente queria e isso transformou ela em uma pessoa frustrada e ressentida.

Desde cedo ela simplesmente parou de viver para ela mesma e foi viver para os filhos. Provavelmente essa foi a pior decisão que ela já tomou.

Ela sempre foi controladora, eu não podia dormir em casa de amigas, não podia sair tanto quanto outros amigos saiam, ela nos levava e buscava em absolutamente todas as nossas atividades, porque não podíamos pegar ônibus sozinhos, o mesmo valia para festas, ela precisava levar e buscar, não podíamos pegar carona com os pais dos nossos amigos, por exemplo.

Mas ao mesmo tempo, ela sempre foi uma mãe que tentou ser minha amiga, conversava comigo sobre garotos, me deixava convidar quantos amigos quisesse para vir em casa, para dormir em casa e dava carona para todos eles. Ela sempre dizia que preferia manter a gente por perto para saber o que estávamos fazendo. Acho que o maior medo dela era que acontecesse comigo, o mesmo que aconteceu com ela.

Os maiores motivos de briga sempre eram meus namorados. Toda vez que eu começava a gostar de verdade de alguém, ela instantaneamente passava a detestar aquela pessoa e me proibia de continuar namorando. Como ela fazia isso? Parando de falar comigo. Nós duas éramos muito próximas e eu era extremamente apegada a ela. Ela sabia que era só se afastar de mim que eu fazia o que ela queria.

Não sei se o medo era que eu engravidasse, que eu crescesse, que eu não dependesse ou precisasse mais dela ou de tudo isso ao mesmo tempo. Acho que o medo maior era perder o controle sobre mim.

Quando estava no último ano do colégio, conheci uma pessoa. Começamos a namorar e era tudo lindo, mas sabendo o rumo que esse namoro poderia levar por causa da minha mãe e não querendo que isso acontecesse, conversei com ela sobre a situação. Disse que gostava muito dele e que não queria que em algum momento, quando as coisas ficassem sérias ela parasse de falar comigo para eu terminar com ele. Ela me disse que não iria acontecer, mas adivinha?

Quando ela começou a perceber que as coisas estavam ficando sérias, começou a cortar minhas saídas com ele, as vindas dele na minha casa e eu já entendi tudo que iria acontecer dali pra frente.

Perdi a virgindade com esse namorado, semanas depois ela me questionou e eu contei (na esperança de que ela fosse compreender). E foi aí que tudo começou. Ela fez um escândalo, contou para o meu pai, que fez outro escândalo, parou de falar comigo, me proibiu de fazer qualquer coisa que não fosse ir para a escola. Lembro uma vez no carro, em frente minha escola, ela começou a gritar que eu era uma puta, uma vagabunda… Mas eu não terminei meu namoro.

Não demorou muito para ela entrar em depressão, parou de comer, de tomar banho, não saia da cama, não abria a janela. Eu fiquei desesperada, tentava conversar, tentava questionar o porquê dessa reação, afinal era só um namoro, eu gostava dele, ele não era uma pessoa ruim, não me fazia mal, eu estava feliz e tudo que eu ouvia era que a culpa era minha.

Ouvia o tempo todo que ela estava doente e a culpa era minha, se ela morresse, a culpa era minha. Tudo de ruim na vida dela, a culpa era minha.

No meio disso tudo, fiquei sabendo que passei no vestibular em outra cidade. Começou o medo de não me deixarem ir. Esse era meu plano antes de conhecer meu namorado, mas por algum motivo, eles resolveram esquecer disso e falavam que eu só queria mudar de cidade para ficar transando com ele.

Fui fazer a faculdade. Finalmente me senti livre, mas por pouco tempo. Eu nunca tinha dormido fora da minha casa, nunca tinha pego um ônibus, não andava a pé para nada e de repente me vi sozinha, em um lugar que me era estranho e só com um rosto conhecido por perto. Perdi a cabeça, emagreci, só chorava, nunca me senti tão sozinha na vida.

Eu queria passar todo o tempo disponível com o meu namorado, tinha a sensação que precisava compensar todo o tempo que fui proibida de ficar com ele, tinha medo de a qualquer momento minha mãe encontrar um jeito de separar a gente e por isso, queria aproveitar ao máximo a companhia dele. Claro que não demorou muito e eu comecei a sufocar o nosso namoro, começamos a brigar muito, eu não tinha com quem conversar, não tinha outras pessoas para passar meu tempo, não tinha nada.

Apesar do inferno que era a minha casa, eu sentia falta dela. Era uma coisa familiar pelo menos. Voltava todo final de semana e assim foi durante todos os anos que morei fora. Meus pais não falavam comigo, meu irmão não falava comigo. Os dois acreditavam que eu tinha deixado minha mãe doente.

O tempo passou, as coisas melhoraram um pouco. Decidi bater de frente com os meus pais e falar que ia continuar namorando sim, que iria sair com ele sim e que eles não poderiam fazer nada a respeito. Meu pai e meu irmão foram percebendo que a minha mãe também precisava de ajuda e que a culpa não era minha

Minha mãe continuou sem falar comigo e isso durou 5 anos. Eu me formei na faculdade e lembro das brigas do meu pai com ela, por ela não querer ir na minha formatura. Ela foi, lembro que a primeira coisa que ela falou foi que meu vestido era feio. Era uma das primeiras vezes em muitos anos que ela e meu namorado estavam no mesmo lugar, ao mesmo tempo. É claro que rolou um estresse. Ela pediu para ele sair da mesa, eu disse que ele não ia sair, ela saiu e foi para o carro esperar o fim da festa.

Eu e meu namorado continuamos namorando, estamos comprando um apartamento na nossa cidade-natal. Voltamos pra cá há 1 ano. Como estamos pagando um apartamento que ainda não existe, não sobra dinheiro para pagarmos um aluguel, então voltamos para a casa dos nossos pais.

As coisas em casa estavam mais calmas, minha mãe fazendo terapia, começando a falar algumas coisas comigo tipo “oi” e “tchau”. No Natal anterior à minha volta, ela me deu um presente. Não tem como negar a minha felicidade, achei que a partir daquele momento tudo se resolveria e viveríamos felizes para sempre. É claro que não tem sido assim.

Hoje minha mãe fala comigo, mas não temos mais intimidade nenhuma, sinto que estou pisando em ovos sempre, com medo de mais um surto de mais uma recaída, mas ainda me sinto livre. Vivo minha vida, trabalho, ganho meu dinheiro e ela não me controla mais, eu não deixo isso acontecer.

Ainda tem muita briga. O ambiente aqui em casa é sempre pesado. Ela sempre está fazendo alguma provocação ou alguma crítica. Hoje eu sei que sou tudo que ela gostaria de ter sido. Me formei, tenho uma empresa, faço mestrado, tenho um relacionamento ótimo com meu namorado, viajo muito, estou comprando um apartamento e tudo isso antes dos 25. Mas ainda parece pouco para ela. Parece que eu nunca vou ser boa o suficiente enquanto estiver em algum relacionamento. Bom, então não vou ser porque não pretendo desfazer esse que estou vivendo.

E agora, com poucos dias para a chegada do Dia das Mães, eu me dei conta de que estou em um relacionamento abusivo com ela. Há anos eu não tenho vontade de parabenizar por esse dia, ou dar presentes, ou abraçar… Mas eu faço isso, porque não quero cortar totalmente minha relação com ela, só quero me afastar, respirar um pouco melhor… mas é difícil porque ainda moro na casa dela.

Ainda não acho que ela é uma pessoa ruim, ela foi uma mãe maravilhosa durante a minha infância e no começo da adolescência, mas ela não soube lidar com uma filha adulta. Ela tem os problemas dela, eu tenho os meus e é ok a gente não se dar bem, mas ainda é dolorido.

Achei importante escrever esse texto porque não acho difícil ter mais pessoas em uma situação parecida com a minha e para aquelas que estão, nós sabemos o quão confuso e dolorido pode ser uma data como a do próximo Domingo. É importante falarmos sobre isso. Não somos obrigados a amar/gostar/ter carinho por ninguém, até porque, se for por obrigação já é problemático né?

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