14/05/2014 - Por Reflexões

Ninguém define a minha felicidade

Ninguém define a minha felicidade

Na minha infância, em casa, aprendi três lições extremamente bem e que me acompanharam por muito tempo:

1. Coma de boca fechada
2. Nunca interrompa quando alguém estiver falando
3. Quando você for mais velha, você vai mudar de ideia.

Ouvi a última e famosa frase pela primeira vez aos 6 anos, quando informei, em toda o meu conhecimento infantil, que jamais iria ter filhos, mas 18 cachorros e possivelmente um gato. Minha mãe riu, balançou a cabeça e me disse essa tal frase, que todo mundo ouve pelo menos uma vez na vida.

Essa é a história que gosto de contar quando as pessoas perguntam se acho que não vou me arrepender de terminar meu noivado e me mudar para a Alemanha a trabalho.

Com o tempo, percebi que meus 18 cachorros eram provavelmente uma má ideia, mas a cada dia fico mais velha, e ainda espero mudar de ideia sobre o resto. O casamento de branco, cercado pela família e um futuro com 2.5 filhos parece lindo e, quem sabe, quando for mais velha, talvez deseje, afinal, esse desfecho para a minha vida.

Minha mãe balança a cabeça como fez na minha infância e até meus amigos duvidam, olham com pena – recebi um checklist da felicidade quando nasci, entende, com marido, casamento, filhos e tudo mais, e, abandonando tudo isso, me dizem que estou me condenando a infelicidade.

Acreditam tanto nisso que até eu duvido – talvez a felicidade que eu encontre pelo mundo não se compare a de ter uma criança. Talvez, quem sabe. Mas a senhora que mora no oitavo andar nunca se casou e é a pessoa mais sorridente que conheço. Minha amiga nunca se interessou por homens e nem por isso é menos feliz.

Sei que incomoda o sacrifício – meu sonho de morar fora seria outro se eu não tivesse alguém já, seria até oportunidade pra conhecer alguém. Mas nesse mundo, o homem vem primeiro e esses sonhos em segundo – como ouso sacrificar um noivo por uma viagem, quando eu já tinha tudo que realmente importava?

O noivo foi o mais indignado de todos, não entendendo – me falou de planos que nem sabia que tínhamos, de ir morar na cidade dele, de nomes que íamos dar pros nossos futuros filhos, que eu nem sabia que teríamos. Chorei muito no começo, mas depois me iniciou um ataque de risos que não acabava, que fez ele ficar puto, bater a porta e ir embora.

Não consigo explicar porque ri tanto, mas me pareceu fantástico, cena de um filme em que ele me listava o futuro que eu perdia e eu chorava, perdia perdão e mudava de ideia. Saia correndo do avião e corria em direção aos braços dele. É isso que dá assistir tanta comédia romântica.

Na vida real, eu ri muito, chorei mais um pouco, e comecei a fazer as malas. A vida é muito curta para viver a vida dos outros, e se for me arrepender, quero que seja pelas escolhas que eu fiz e não pelas que eu tive medo de fazer.

Se a felicidade é um checklist, o mais importante deve ser ‘escute a si mesma’ – acho que momentos assim a gente tem que tacar um ‘foda-se’ mesmo, viver de maneira egoísta, deixar os outros falando de meus erros, minhas escolhas, a tal da minha infelicidade. Deixa eles balançando as cabeças, eu vou estar ocupada vivendo.

Auf Wiedersehen!

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