10/11/2016 - Por Reflexões

O conflito entre a pessoa que formamos e a pessoa que já temos

É inegável que para a educação é de extrema importância pensar em qual pessoa a sociedade quer formar, para que assim seja definido o tipo de educação necessária para a conclusão desse objetivo. Porém atualmente, esse aspecto vem sendo levado tanto em consideração que se esquece de outro fator importantíssimo para a educação: a pessoa que já temos.

Já dizia Einstein: “Todo mundo é um gênio. Mas se você julgar um peixe pela sua habilidade de subir em árvores, ele viverá o resto de sua vida acreditando que é um idiota”. A escola hoje não somente julga os “peixes” pela sua capacidade de subir em árvores, mas também os obriga a subir nelas.

Minha opinião é baseada completamente na minha experiência pessoal como estudante de escolas públicas brasileiras e de alguns módulos concluídos na faculdade de Pedagogia (a qual curso). Portanto não sou uma especialista. Dito isso, vamos lá.

Até aproximadamente a sexta série tive muito incentivo por parte dos professores no meu sonho em ser escritora, pois escrevo desde pequena: arte era a minha praia. Mas da sétima série em diante, mais próximo à oitava série, quando se começa a por em prática a função preparatória para o mercado de trabalho da educação, a escola se tornou para mim um lugar de esmagar sonhos.

Entrei no primeiro ano do ensino médio com uma mente criativa, colorida, completamente ativa e cheia de ideias, opiniões e projetos e saí do ensino médio com uma cabeça quadrada, acinzentada e completamente obediente.

Entrei na faculdade esperando ter um ambiente onde, mesmo cursando um curso à distância no qual vou uma vez por semana presencialmente, pudesse expor minha criatividade, minha opinião, meu pensamento, mas encontrei um ambiente mais quadrado e intolerante ainda.

No ensino médio as minhas habilidades foram colocadas contra a parede, pressionadas contra a Física, a Química e a Matemática, massacradas diante da importância única colocada sobre essas matérias. Na faculdade, encontrei um ambiente que classifica como importantes e relevantes as opiniões somente vindas de pessoas mais velhas e experientes. Eu, que sou jovem, não sou levada à sério. Encontrei alunos, futuros professores, mexendo no celular durante a aula (celular este que os mesmos vão pedir para os alunos desligarem em sala, daqui alguns anos), encontrei manipulação de ideias, falta de incentivo, desorganização e tantas outras coisas negativas quanto posso listar.

A educação atual, extremamente capitalista, massacra o jovem e suas habilidades cada dia mais. A gente sai do ensino médio se achando burro só por que a nota mais baixa é em química, física, porque somos ensinados que essas são as matérias mais importantes.

“Que se dane a sua nota de filosofia! ”. – Diriam alguns pais, seguido de alguns palavrões – “De que adianta essa nota se em matemática você é um lixo? ”- “Que emprego você vai conseguir com essas notas? ” – Diriam outros.

Infelizmente ainda existem pessoas (incluindo professores), que acreditam que o modelo de avaliação escolar demonstra realmente a inteligência do aluno, de maneira que se o mesmo não for bem na prova de geografia, por exemplo, significa que ele não é inteligente. A questão é: existem diversos tipos de inteligência e a inteligência escolar é apenas uma delas.

Atualmente o sistema educacional, principalmente depois que o aluno sai do ensino infantil, não valoriza as suas capacidades natas, a sua inteligência emocional, artística, sua capacidade crítica, criativa, suas ideias e suas opiniões, muito pelo contrário: a escola se torna cada vez mais uma máquina de robôs, enfileirando os alunos como produtos em uma esteira.

Essa característica mecânica muitas vezes reforça padrões sociais que cada vez mais incentivam o jovem a curvar-se diante de um modelo engessado de “pessoa perfeita” frustrando-os casa vez mais e fazendo com que ele se sinta sempre incompleto, incapaz, errado e desmotivado a ser quem realmente é e a lutar pelos seus sonhos. Esses padrões são reforçados de diferentes formas ao longo do processo educativo e muitas vezes são vistos como comuns e inocentes, mas carregam em si um peso muito grande. São alguns exemplos:

-Aquela frase religiosa que o professor anota na lousa e pede para todos lerem e copiarem em seus cadernos (já presenciei diversas situações onde o professor tirava um ponto da nota de quem não copiasse).

-Quando os funcionários da escola (incluindo professores, inspetores, coordenadores, etc.) fazem “vista grossa” ao ver um aluno sofrendo bullying.

-Aqueles comentários maldosos entre o professor e seus colegas de trabalho sobre o aluno do quinto ano que tem duas mães.

Todas essas situações provocam no jovem o pior tipo de questionamento possível: “Será que eu estou certo em ter a religião que eu tenho?”. “Será que esses garotos que me batem e fazem com que eu me sinta mal estão certos sobre mim?”. “Será que eu deveria ficar calado diante desses garotos me agredindo?”. Parecem coisas simples quando vemos de longe, não é? A frase na lousa, os comentários… Parecem inofensivos e até comuns, mas é esse o problema: a normatização, o “é assim mesmo”.

A escola é o reflexo da sociedade. Se temos uma sociedade heteronormativa, passiva diante de injustiças, consumista ao extremo e principalmente intolerante e desonesta, a escola será assim também e o jovem ao sair dela continuará contribuindo para uma sociedade mais retrógrada.

É necessário construir uma escola que quebre esse modelo engessado, que incentive o jovem a pensar por si mesmo, que aumente a sua confiança e independência, que incentive o trabalho em equipe, a compaixão, que ensine valores humanos e que principalmente valorize as características afetivas dos jovens. Como podemos dizer que o jovem é o futuro da humanidade se esse mesmo jovem não consegue lidar com sua própria ansiedade?

Trazer o jovem para dentro da escola visando proporcionar a ele um ambiente diverso, criativo, incentivador, onde ele tem voz e sente-se seguro é a chave para a quebra desse processo empobrecedor que é a educação em diversas escolas pelo país. Cabe a nós, futuros professores, diretores, coordenadores, pais e alunos, nos esforçarmos para fazer da escola um lugar de acolhimento e incentivo. A sala de aula pode ser um lugar seguro e de pensamento crítico.

Tags:

Comentários