29/10/2014 - Por Reflexões

O machismo nas eleições

O machismo está presente em todas as esferas sociais que frequentamos diariamente: na faculdade, na escola, nas ruas, na família, na religião, etc. E por ser um sistema universal, não seria na política que ele deixaria de existir.

Essas eleições mostraram bem isso, seja em meio aos políticos ou no machismo vindo dos cidadãos – ele esteve presente nesse mês de outubro não como um candidato, mas como um imperador vitalício.

Vou começar pelo básico: a pouca participação política. Dentro dos presidenciáveis, nós, mulheres, tivemos uma vitória no quesito representação. Dentre os três candidatos “principais”, duas eram mulheres, e quase chegamos a um primeiro segundo turno feito só de mulheres. Ampliando para os candidatos com margem mínima de 1%, subimos para 3 candidatas num total de 7. Quase metade, eba! Mas se a gente considerar todos os candidatos, um total de 11, continua havendo apenas 3 mulheres, e isso é só 27%.

Falando agora das deputadas, é a hora de ficar mais triste. Em 5 estados (AL, ES, MT, PA, SE), nenhuma (n-e-n-h-u-m-a) mulher foi eleita deputada federal. Já os estados com maior porcentagem de mulheres eleitas foram Amapá (38%), Tocantins (38%), Rondônia (25%), Roraima (25%), Piauí (20%). Isso num país onde a maioria do eleitorado é feminino. Não é um absurdo? “Entre os totais de candidatos no Brasil, dos 4.382 homens, cerca de 10% foram eleitos. Em contrapartida, das 1.796 mulheres que buscavam um cargo na Câmara, apenas 2,8% conquistaram um lugar na bancada”, diz o G1. Finalmente, o número de mulheres eleitas na Câmara cresceu neste ano, mas ficou ainda em 10% do total.

Pra explicar isso, é só a gente pensar que a pouca representatividade feminina na política vem como reflexo de outras áreas. Além disso, quase ninguém, quando sua filha nasce, deve imaginá-la no futuro como uma grande política. Política parece ser um espaço apenas para homens (assim como outras grandes áreas).

Assim, existe pouca mulher candidata a qualquer cargo político não porque “é culpa delas, elas que não se candidatam”, como já me disseram. E sim porque não há incentivo! A mulher não sabe que pode mais, como os homens sabem desde que nasceram.

Um exemplo disso é o próprio Aécio Neves, que foi candidato à presidência, e sua irmã Andrea Neves. Tancredo Neves, avô dos dois, foi político, como sabemos. E é claro que ele ia passar a política de herança para seus netos. Foi assim principalmente com Andrea, por ser a primeira neta, mas havia um empecilho: mulher, naquela época, não poderia virar presidente. Portanto, ele teve que ensinar Aécio a ser como ele para, futuramente, tomar o posto de chefe da União.

Mudando de assunto, mas ainda aproveitando o nome de Aécio Neves, ele foi um candidato que gerou polêmica com sua postura frente às candidatas, como Luciana Genro, quando apontou o dedo para ela e a chamou de leviana, e com Dilma Rousseff, principalmente no segundo turno, quando desmerecia suas falas através do tom de sua voz e dizendo que ela estava mentindo, sendo leviana, etc.

Outro fato assustador foi a grande defesa da “família brasileira”, feita por Everaldo e Levy Fidelix. Este último chocou a todos com seu discurso homofóbico (que parte, é claro, do machismo) dizendo que “órgão excretor não reproduz” (mas fala, né…). Já o pastor, ele defende tanto a “tal família brasileira”, sendo que é divorciado e há quem diga que batia na mulher. Eu que não quero viver nesse tipo de família.

Agora falando da receptividade dos eleitores pela presença de “tantas” candidatas femininas, pudemos ver diversos discursos que levavam mais em consideração a aparência das candidatas do que sua capacidade de governar um país. Primeiro, Luciana Genro recebendo uma chapinha de presente. Segundo, pessoas dizendo que a Marina é muito feia para ser elegida e que deveria fazer sua sobrancelha, além de ser magrinha, dito por Eduardo Jorge. Terceiro, que Dilma é muito feia e não pode nos representar internacionalmente por isso, enquanto o Aécio, “nossa, olha essa mulher dele e o tanto de mulher bonita que ele já ‘pegou’”. De onde tiramos que ser “bonito” ou “feio” interfere num governo bom ou ruim? Isso porque nunca falamos sobre a aparência de candidatos homens. Ps: inclusive a própria Marina, uma mulher, fez piada com o fato dela ser magrinha e a Dilma, outra mulher, gordinha.

E pra finalizar, uma questão que já foi extremamente debatida e que recentemente eu mesma participei de discussões sobre: a palavra “presidenta”, sim, com “a” mesmo. Sim, a Dilma tem total liberdade pra utilizar essa palavra – além dela existir oficialmente. Ela é a primeira mulher eleita (e agora reeleita) presidente no Brasil – e isso é um marco histórico, minha gente. Ela não tem o direito de deixar isso claro na própria nomenclatura? Ela não pode se empoderar se chamando de presidenta e não de presidente? Ela não pode deixar notória uma grande conquista deste país?

Desmerecer essa liberdade da nossa presidente é, sim, machismo, é desconsiderar que o Brasil é um país extremamente patriarcal ainda e misógino. É achar que tudo é tão perfeito e ideal que ela nem precisou de um esforço pra chegar ali. É desconsiderar uma luta gigante que existe diariamente e já é desdenhada a cada dia que passa.

Votando ou não, apoiando ou não a candidatura de Dilma Rousseff, ela merece respeito pois chegou a um patamar ainda muito difícil de se alcançar. De ser líder de uma nação. Você pode a chamar de presidente ou presidenta, mas, por favor, não cale ou menospreze a escolha dela de se empoderar e se chamar no feminino desta palavra de tão grande valor.

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