19/10/2015 - Por Reflexões

O mito da “Mulher Negra Raivosa”

Vocês já passaram por uma situação em que um homem ficava falando coisas que você não gosta, te provocando, tentando tirar uma reação porque “gosta de irritar”? Como se a sua raiva fosse algo engraçado, divertido, bobo, algo sem razão?

Enquanto um homem raivoso é algo a ser temido e respeitado, enquanto as mulheres, quando se irritam, se provam como “criaturas emocionais” que o mundo insiste que somos e nossas opiniões de repente passam a valer menos.

Isso tudo não é somente especulação – estudos recentes mostram que, quando deparados com as mesmas frases e expressões de raiva, as pessoas (mulheres ou homens) tendem a acreditar nos argumentos se o sujeito for homem e perder confiança neles se a pessoa raivosa for mulher.

Embora os estudos não tenham analisado como a raça influencia nesse caso, não posso deixar de imaginar que o efeito é pior para mulheres negras. Vários textos que rolaram pela internet na última semana falaram sobre a importância da interseccionalidade (leia o das Blogueiras Feministas e sobre caso com a Meryl Streep aqui) e eu não pude deixar de pensar nisso enquanto lia sobre essa pesquisa sobre “mulheres bravas” – a pesquisa não deveria ter ignorado a raça, principalmente se tratando de um estereótipo que afeta profundamente mulheres negras.

O estereótipo da “mulher negra raivosa” (Angry Black Woman) é algo que vemos muito nas representações de mulheres negras pela mídia – sejam personagens ou pessoais reais. No livro “Sister Citizen – Shame, Stereotypes and Black Women in America”, a professora Melissa Harris-Perry fala sobre esse estereótipo:

“Esse estereótipo não reconhece a raiva da mulher negra como uma reação legítima diante de circunstâncias injustas, ele é visto como um desejo patológico, irracional da mulher negra em controlar o homem negro, a família e a comunidade. Ele pode ser empregado contra mulheres negras que se atrevem a questionar injustiças, mal-tratos ou pedir ajuda”.

A professora diz, ainda, que essas reações de raiva costumam ser acompanhadas de rolar de olhos e dizeres como “Já começou, a rancorosa”.  Dessa maneira, as preocupações das mulheres negras são ignoradas e suas vozes silenciadas – se compreende que só é possível uma conversa “racional” se essa raiva for ignorada.

Shonda Rhimes, escritora e produtora de séries americanas, é só um exemplo de como esse estereótipo é usado – ela passou por isso em 2014, quando o New York Times disse que sua biografia devia se chamar “How to Get Away With Being an Angry Black Woman” (‘Como não ser julgada por ser uma mulher negra raivosa’, um brincadeira com o titulo da sua nova série, ‘How to get away with murder’ que pode ser traduzido para ‘Como não ser culpado por assassinato’).

O jornal diz que Shonda Rhimes “abraçou a caricatura de Mulher Negra Raivosa”, como se seus personagens de alguma maneira representassem isso – as mulheres negras, nas séries de Shonda, ficam bravas, claro, quando a situação pede por isso. Mas colocar um selo de “Mulher Negra Raivosa” em toda mulher que ousa se irritar é somente insistir que a raiva de uma mulher negra é algo que existe no vácuo – não como consequência de injustiças, mas como se fosse simplesmente característica da personagem ser brava ou rancorosa.

 

O jornal foi duramente criticado e a própria escritora chegou a comentar: “Por que eu não sou uma ‘mulher negra raivosa’ quando é a Meredith ou a Addison que reclamam?” (personagens brancas da série Grey’s Anatomy). É um crítica necessária, que falta em vários espaços feministas – é importante sempre lembrar de outras opressões que as mulheres sofrem, além da do gênero, que carregam seus próprios estereótipos e opressões.

Para piorar a situação o NY Times ainda descreveu Viola Davis, protagonista do novo programa de Shonda Rhimes, como “mais velha, com pele mais escura e menos classicamente bonita” – mas isso é um absurdo em si só, que merece texto próprio.


 

Sobre as série e livros mencionados:

  • A primeira temporada de How to Get Away With Murder está no Netflix e vale a pena assistir!
  • “Sister Citizen – Shame, Stereotypes and Black Women in America”, você pode conferir aqui: http://oferta.vc/m9s2
  • Sobre feminismo negro, já me recomendaram também o livro But Some of Us Are Brave (que infelizmente só achei em inglês). Confira aqui: http://oferta.vc/m9rZ

Você tem recomendação de livros/filmes/textos sobre Feminismo Negro? Passa pra gente!

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