11/11/2015 - Por Reflexões

O mundo é dos homens – de mais jeitos do que você imagina

Toda vez que o assunto Smartphones entra em pauta (e eu estudei Comunicação e depois Sistemas de Informação, então discutimos bastante sobre isso), eu reclamo do tamanho deles. Meu professor de Design, da primeira vez que comentei isso, ficou confuso – sim, as telas estão maiores do que eram antes, mas qual o problema? Não é o ideal, já que cada vez fazemos mais coisas com o celular?

Eu tive que explicar pra ele que ele acha isso porque ele é um homem e o celular dele cabe no bolso dele. Mas meus bolsos ridículos de mulher não conseguem carregar nada, então ou eu jogo o celular na bolsa (e boa sorte para encontrá-lo depois) ou fico com ele na mão. Meu professor jamais tinha considerado isso.

É um detalhe, claro. Mas é um bom ponto de partida para analisar como as necessidades e desejos dos homens são prioridade na nossa sociedade.

Encontrei esse artigo recentemente que fala sobre isso, e achei que valia dividir com vocês para entendermos melhor como “o mundo dos homens” não se refere apenas a como eles dominam a maior parte dos cargos de liderança.

A escritora do artigo começa dando o exemplo de banheiros públicos – você sabia que mulheres urinam mais e com mais frequência do que homens, por uma série de motivos? Mesmo assim, em nome de “igualdade” (e aqui vemos a importância da igualdade real considerar as diferenças), o número de banheiros masculinos e femininos tendem a ser iguais, o que leva aquela situação que todos conhecem bem – filas quilométricas no banheiro feminino e nenhuma no masculino.

Mais do que isso, algo tão simples como banheiro foi usado por muito tempo como justificativa para a exclusão feminina – as escolas Yale e Harvard, por exemplo, costumavam dizer que seria “impossível” aceitar mulheres como alunas porque eles não tinham banheiros femininos. Algumas escolas – como o Instituto Militar de Vírginia – ainda estavam usando essa desculpa até 1996, e o equivalente ao Senado dos Estados Unidos não tinha um banheiro próximo até 2011 (!!!). O banheiro mais próxima era tão longe que as mulheres às vezes perdiam partes das sessões, enquanto o banheiro masculino tinha um lareira e uma televisão que mostrava as sessões legislativas.

O problema com coisas assim é que mulheres são socializadas para ignorar desconforto e dor – então raramente reclamamos de coisas como filas infinitas do banheiro, ou o fato de não termos absorventes gratuitos em banheiros públicos (porque não??? É um item de higiene básica!). E, quando reclamamos, a tendência é uma onda de ódio masculina, de dizer que “reclamamos demais”, “são amargas”, etc.

Mas banheiros são só um exemplo.

Sabe os bonecos que eles usam para testar a segurança de um carro? Bem, até 2003, todos eram masculinos, e não só ignoravam as necessidades femininas, mas acabam colocando as mulheres em maior risco – tanto que, durante anos, mulheres morriam muito mais em acidentes de carro por causa de falhas de segurança do carro. Hoje, em média 35 a cada 200 desses bonecos se aproximam da forma feminina (e eu não encontrei dados, mas duvido muito que esses bonecos tenham uma variedade de formas do corpo, para pessoas gordas ou obesas, por exemplo).

 

Algo que uma amiga minha sempre reclama também são os tais dos “apps de saúde”, principalmente aqueles que já vem com o celular – a maioria das métricas se referem a dados masculinos e praticamente nenhum deles permite acompanhar o ciclo menstrual, uma necessidades para muitas mulheres. A questão da saúde é central, nesse sentido, e muitas pesquisas e projetos, atualmente, não estão levando em considerando as necessidades femininas – por exemplo, a maioria dos corações artificiais pode salvar, em média, 86% dos homens, mas só 20% das mulheres. Não é a toa que doenças do coração são uma das principais causas de morta em mulheres nos Estados Unidos. Mesmo com institutos de saúde exigindo diversidade em pesquisas médicas, isso não se transformou em realidade.

Nós também temos áreas construídas com homens em mente – como cabines de avião, por exemplo, que 70% das mulheres não tinham altura o suficiente para operar com segurança – além do “imposto feminino”, que é o que aconteceu quando você paga mais por algo só porque é voltado para mulheres (preste atenção nos preços de shampoo, desodorante e giletes, por exemplo).

A autora do artigo que inspirou esse texto disse que, provavelmente, agora, enquanto reclamamos disso, tem um homem digitando “Parece de reclamar, tem mulher que sofre de verdade” o que basicamente pode ser traduzido para “Cale a boca e se considere sortuda que nós te tratamos bem (comparado a elas)” (esse negócio do sofre “de verdade” merece um texto próprio, então fica pra próxima).

Mas o ponto aqui é que nós somos socializadas para adaptar a essas situações, entendê-las e aceitá-las – mas precisamos tentar exigir nossos direitos, e lutar por um mundo em que nossas necessidades sejam verdadeiramente atendidas. Talvez não seja tão óbvio quanto a violência física que muitas de nós sofremos, mas mecanismos como esse – desde filas longas até impostos extras sobre produtos femininos – são problemas que fazem parte de uma cultura que coloca a experiência masculina como central e prioritária.

 

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