26/04/2017 - Por Reflexões

O que você está fazendo?

Essa semana foram divulgadas algumas notícias à respeito de um suposto jogo perigoso e polêmico: o Desafio da Baleia Azul.

O jogo passa por grupos fechados nas mídias sociais e envolve uma série de desafios que vão desde ver vídeos assustadores à auto-mutilação, esses desafios são dados por um tipo de “mestre”, que ordena quais tarefas devem ser seguidas ao longo dos dias. O desafio final é o suicídio.

Quando procuramos algo sobre isso na internet encontramos – dentre diversos sites listando os desafios – matérias sobre vítimas no exterior, teorias conspiratórias e sites religiosos enfurecidos.

Mas nada disso é tão chocante quanto os comentários nessas matérias, nas mídias sociais, na televisão etc.

O que mais encontramos ao pesquisar sobre esse desafio são pessoas dizendo que isso é “coisa do inimigo”, “jogo de gente desocupada”, “coisa de gente com a mente fraca” e, entre os piores comentários que li: “Esse jogo faz um favor pra sociedade, eliminando gente desnecessária”.

Bom, como alguém que já teve desejos e atitudes suicidas eu posso lhes garantir uma coisa: ninguém – absolutamente ninguém – cogita tirar a própria vida se não estiver sofrendo. Ninguém cogita cortar os pulsos se não estiver passando por alguma depressão, algum desespero, alguma solidão. As pessoas que participam desse jogo – e, pior, aquelas que o comandam – tem algum problema que precisa ser urgentemente resolvido e é sobre isso que vamos conversar:

Já parou pra pensar em como a gente trata o sofrimento dos jovens? Em como a gente lida com isso? Quando um adolescente diz que se sente sozinho, que não consegue fazer amigos e que se sente triste e ansioso o que nós fazemos? Nós dizemos a ele que isso é normal, que isso acontece na adolescência e logo vai passar. Quando esses sentimentos não passam nós continuamos a dizer que é besteira, que vai passar e, caso isso definitivamente não for embora, começamos a dizer que querem chamar atenção, que não são mais criancinhas e que são insuportáveis ao invés de finalmente percebermos que algo não está certo.

Falamos tanto que o sofrimento é normal que ele, de fato, se tornou comum: muitos jovens convivem tanto tempo com essas dores que nem percebem mais. Acham que a solidão é comum, acostumam-se com ela e a engolem em seco e calados, fazendo com que cada vez mais se agravem as depressões, as ansiedades e os diversos transtornos psicológicos.

Chegamos à um ponto onde jovens estão tirando as próprias vidas através de um jogo e o que nós estamos fazendo? Lhes dizendo os mesmos bordões envelhecidos: “eles não têm o que fazer”, “querem chamar atenção”.

Vamos parar um pouco e pensar no que nós – como cidadãos – estamos fazendo para manter a juventude mentalmente saudável: além de termos centros de preservação da vida e psicólogos disponíveis gratuitamente pelo governo, nada. Não estamos fazendo nada.

Colocamos todo o peso do futuro nas costas deles alegando que já somos velhos de mais, propagamos a juventude como futuro da nação (mesmo que eles não saibam lidar com suas próprias ansiedades), queremos que crianças de 16, 17 anos decidam a profissão das suas vidas, faculdade aos 17 anos, sistema escolar falho e desencorajador, desigualdade social, famílias desestruturadas, preconceito, homofobia, machismo, agressão sexual pras meninas e sexismo para os meninos, bullying, slut-shaming… É isso que fazemos por eles! É isso que damos à eles!

Não só na adolescência, mas na vida: A tristeza é normal, o sofrimento não; Ter medo de público é normal, mas ter taquicardia quando o telefone toca não; Sentir dor é normal, mas querer se machucar não.

Quando seu filho chora você o apoia e escuta? Ou você o reprime e chama de “mulherzinha”?; Quando a garota do seu colégio sofreu bullying você contou para algum professor e tentou ajudar? Ou somente “foi na onda” e riu dela também?; E se o filho do seu vizinho participasse do Desafio da Baleia Azul você aconselharia o pai a levá-lo à um médico? Ou só diria que essa juventude anda querendo muita atenção?

Antes de dizer essas coisas malvadas sobre os outros pense: o que você está fazendo pra tornar melhor a vida do próximo?

Se você conhece alguém que tem comportamentos suicidas faça uma intervenção: converse com essa pessoa e a ajude a procurar um profissional qualificado para esse tipo de problema. Assim você não estará exercendo somente a sua cidadania, mas estará tornando melhor a vida de outro ser humano.

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