06/08/2018 - Por Reflexões

O silêncio protege

É impossível não se deparar em algum momento do dia com notícias sobre a morte da advogada Tatiane Spitzner. Infelizmente, muito, muito, muito infelizmente, o que aconteceu com Tatiane não foi um caso isolado. Muitas mulheres são agredidas, violentadas e mortas pelos homens que um dia elas escolheram como companheiro.

É TANTA coisa que precisa ser falada sobre esse assunto que fica difícil saber por onde começar.

É óbvio que essas atrocidades só acontecem o tempo todo porque vivemos em uma sociedade machista e patriarcal. Se os homens não vivessem na certeza de que eles têm poder em relação às mulheres, o cenário seria outro.

Se você está lendo esse texto, provavelmente você faz parte de um grupo de pessoas que tem consciência do tamanho da violência que é sofrida pela mulher no nosso país todo santo dia. Nós lutamos, conquistamos, avançamos, mas a notícia sobre a morte de Tatiane nos atinge como um tapa na cara que nos mostra que por mais que a gente lute, o caminho ainda é muito longo.

Para ficar bem didático, resolvi listar alguns pontos que precisam ser mudados com urgência!

  • O marido dela é um monstro

É claro que uma pessoa boa não consegue agredir e matar a própria mulher e depois arrastar o corpo dela da calçada de volta para o apartamento, se limpar e sair com o carro enquanto a polícia está na porta do prédio. Mas insistir que o agressor é um monstro, faz com que a gente não reconheça que o problema não está só nesse homem específico que cometeu esse crime específico, está em toda a sociedade machista que a gente vive. Ele não é um monstro, ele é um cara normal que se beneficia do machismo e acha que pode fazer o que quiser com uma mulher porque ele tem poder em relação a ela. Esse cara está do nosso lado o tempo todo. Ele pode ser aquele colega de trabalho, professor, amigo, irmão, tio… Enquanto vivermos em uma sociedade que protege o agressor e que acha que essas “brigas” são normais, absolutamente qualquer homem pode cometer essa atrocidade.

  • A famosa e antiga ideia de que em briga de marido em mulher, não se mete a colher

Gente, pelo amor de Deus, como não meter a p@#*a da colher em uma briga se só em São Paulo, cerca de 30% das mulheres assassinadas foram mortas pelo marido?? Como não interferir se o Brasil é o quinto país do mundo com maior número de feminicídio?? Essa cultura burra e idiota que a gente tem, é culpada por Tatiane não estar mais aqui. Vizinhos escutaram a briga, escutaram os pedidos de socorro e não fizeram absolutamente nada! Como escutar uma mulher pedindo S O C O R R O e não fazer nada? Por que isso acontece? Porque a gente acha normal, a gente acha que essas coisas acontecem mesmo de vez em quando, a gente acha que é só uma briga que vai passar. Vocês têm noção de que esse pensamento ridículo de não interferir em uma briga, ajuda a proteger o agressor e matar a vítima? Vocês têm noção que o seu silêncio pode contribuir para o assassinato de uma pessoa? Essa herança do silêncio precisa acabar!!

  • Inventar desculpas esfarrapadas para o seu silêncio

Uma das coisas que mais escuto sobre interferir em brigas de casais são: “ah, mas a gente entra no meio e depois ela volta para ele”. Gente, existe uma coisa chamada relacionamento abusivo. Se você realmente acha que a mulher insiste em ficar do lado de um agressor porque ela “gosta”, você é uma pessoa muito ruim e muito ignorante. Muitas mulheres acabam não saindo dessa situação de violência e de relacionamento abusivo por milhares de motivos. Muitas são desencorajadas pela própria família que acha essa situação “normal”, muitas acreditam no discurso do companheiro de que as erradas são elas e que elas nunca mais vão encontrar alguém caso terminem com ele, muitas são impedidas de trabalhar pelos companheiros e depois se veem presas à eles para conseguirem sobreviver. Os que listei acima são apenas alguns exemplos de motivos que levam uma mulher a ter dificuldade de sair de um relacionamento violento. Existem muitos outros. Mas absolutamente nenhum deles é porque ela é “sem vergonha”, “fraca” ou “gosta de apanhar”. Se você pensa assim, você está erradx.

 

Pessoalmente eu não consigo enxergar outra maneira de solucionar esse problema terrível que não seja através da educação e da mudança de cultura. Agora que Tatiane não está mais aqui, chovem comentários denunciando a atrocidade do crime, mas a gente sabe que pouquíssimas pessoas de fato interferem em uma briga de casal quando se depara com uma. Precisamos ensinar as crianças sobre igualdade de gênero, precisamos entender de uma vez por todas que o agressor NÃO PODE ser protegido e que o silêncio protege! Precisamos fazer a nossa parte para que não aconteça mais o que aconteceu com Tatiane e com tantas outras.

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