10/05/2016 - Por Reflexões

O tal do realismo histórico nos filmes e séries

Ontem, conservando com alguns amigos, perguntei sobre a nova temporada de Game of Thrones. Minha amiga me afirmou que estava muito melhor do que a quinta, e ao contrário das temporadas anteriores, que tinham violência contra mulheres a cada 10 minutos, nenhuma mulher havia sido estuprada em cena ainda.

Isso, entre outros fatores, me animou para talvez voltar a assistir a série, mas também me fez ficar com vontade de re-explorar como Game of Thrones faz parte de uma longa tradição de séries ou filmes “históricos” que se utilizam de violência extra e, principalmente, estupro como maneira de chocar a audiência, e defendem a existência dessas cenas como “realismo histórico”.

Bem, primeiramente, vale comentar que Game of Thrones em particular, não é uma série histórica – literalmente é uma fantasia com dragões e zumbis de gelo, então qualquer tipo de “realismo” não devia entrar aí. Mas vemos esse argumento de que estupro é algo “comum” no universos de uma série de televisão ou filme em vários outros exemplos, então vamos fingir, por alguns momentos, que Game of Thrones realmente se passa em um universo que existiu.

Vale perguntar então, porque, quando falamos de “realismo”, sempre é a violência e o estupro? Mulheres acordam maquiadas, todas perfeitamente depiladas até quando estão em uma ilha deserta (oi, Lost), Nova York, uma das cidades mais diversas do mundo, só tem gente branca (oi, Friends), e todos os atores são bonitos e penteados.

Esse post no tumblr (inspiração desse texto), fala sobre outras coisas que são “realistas”. Disenteria. Diarréia. Epidemias. Doenças que hoje conhecemos mas na época eram vistas como mortes aleatórias ou marcas do demônio.

Fica claro principalmente quando falamos de coisas como depilação – porque as mulheres não tem pernas e virilhas peludas nessas séries? “Porque não é bonito de ver, é nojento, ninguém quer ver”, diz algum cara sem noção na internet. E estupro é legal?

Fica difícil de dizer que esses escritores não escrevem sobre estupro simplesmente porque querem, porque acham interessante, legal, e, ouso dizer, até “sexy” – ou pelo menos, não é algo nojento ou ruim o suficiente para evitar mostrar em detalhes.

Claro que o assunto não deve ser evitado completamente – faz parte da realidade de muitas mulheres, e é interessante explorar. Mas não como um elemento de “choque” ou como maneira quase sádica de ver os outros sofrerem (no inglês, existe o termo “torture porn”, livremente traduzido para “pornografia da tortura”). Mais do que isso, é sempre importante que o foco seja na vítima – sua história, seus sentimentos, suas consequências – empurrar tudo isso para baixo do tapete é simplesmente irresponsável.

Finalmente, vale comentar que o passado também não era, muitas vezes, ruim como essas histórias querem nos contar (talvez com a ideia de “olha como as mulheres são bem-tratadas atualmente!). Os Vikings, por exemplo, não tem nenhuma história de estupro contada, o que nos leva a crer que não era um crime tão comum como se imaginava. Também não tratavam estupro como “crime de propriedade”, e puniam esse crime praticamente como uma sentença de morte. Na Europa Medieval, estupradores eram castrados e cegados, e muitas histórias da época contem poucas referências a estupro, e penas severas para quem cometesse o crime.

Para finalizar com um exemplo positivo de uma série que tratou o assunto bem, recomendo Elementary (tem no Netflix), uma versão moderna de Sherlock Holmes (com a maravilhosa Lucy Liu como Joan Watson). Na terceira temporada, eles introduzem a personagem Kitty, que sofreu um estupro no seu passado, mas o ataque nunca é mostrado em cena, nem descrito em detalhes, outros personagens não falam sobre isso pelas costas da menina, e todas as conversas sobre isso levam em conta os sentimentos de Kitty sobre o assunto e como ela está fazendo para superar e sobreviver. Quando finalmente o culpado é encontrado – sem entrar em spoilers – é a Kitty e apenas ela que decide o que vai fazer sobre o assunto, e a melhor maneira de encontrar paz com o que aconteceu com ela.

É possível trabalhar o assunto de maneira decente, mas o que certamente não precisamos ver mais na televisão é mulheres sendo horrivelmente violentadas, sem direito de tratá-las como são – mais do que vítimas, sobreviventes.

Tags:, ,

Comentários