26/03/2015 - Por Reflexões

One Direction e Garotas Adolescentes

Talvez você não tenha ouvido, mas ontem aconteceu uma coisa que chocou muitas fãs de One Direction. Um dos meninos, o Zayn Malik, está saindo da banda. Para quem é como eu, e não sabe o nome deles, segue uma foto do bonitinho.

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Pois bem. Admito que gosto bastante de One Direction, mas também não estou particularmente chateada. E embora ache interessante os motivos que ele deu (para variar, a super-exposição que eles sofrem, a falta de privacidade, etc), estou aqui para falar da reação que as pessoas tiveram a isso.

Pela internet inteira, brotaram listas e mais listas de pessoas zoando meninas adolescentes, que choravam e se chateavam pelo fato. As pessoas riem e balançam as cabeças – “meninas são muito estúpidas”, “isso é hilário”, “ninguém chora assim por causa do governo”.

Eu estou aqui em defesa das garotas adolescentes. Como feminista, a primeira realização que tive, logo cedo, é que meninas devem ser protegidas a todo custo, de uma sociedade que só as machuca e as trata como inferiores. Como sinto que minhas palavras são insuficientes, segue aqui um dos primeiros textos que encontrei sobre o assunto, e que foi extremamente importante pra mim durante minha trajetória feminista.

O texto é de autoria da usuária fygirlcrush do tumblr, traduzido livremente por mim. É comprido, mas eu recomendo ter paciência e ler inteiro, que vale a pena.


PORQUE EU AMO MENINAS ADOLESCENTES (UMA REDAÇÃO DE UMA QUASE-ADULTA)

Alguns meses atrás, eu fui a uma reunião de família na casa dos meus avós e me encontrei com uma prima minha. Ela parecia bem mais velha do que a última vez que eu a tinha visto (ah, a passagem do tempo), então eu perguntei quantos anos ela tinha. Ela respondeu: “Ah, quinze anos”. E minha reação imediata?

“Ai meu deus, eu sinto muito”.

Ela riu, o que me dá um pouco de esperança de que, para ela, ter quinze anos não é um completo pesadelo. Mas eu acho que ela reconheceu o que eu estava dizendo em algum nível. Quinze anos é, sem dúvida, a pior idade. Espera, talvez quatorze. Treze? Doze foi bem ruim também. Foda-se, todas elas são péssimas. Nada resume ser uma jovem garota do que a citação de As Virgens Suicidas: “Você nem é velha o suficiente para saber como a vida pode ser ruim”. “Obviamente, doutor, você nunca foi uma menina de treze anos”.

É incrível, na verdade. Eu passei minha infância inteira contando os dias até que eu me tornasse uma adolescente. Eu planejei tudo perfeitamente: eu iria ao shopping com meus amigos sozinha quando eu tivesse quatorze, beijaria meninos bonitos com quinze, perderia a virgindade com dezesseis, dirigiria um carro fofo com dezessete e iria para a faculdade para ter experiências incríveis com dezoito. Minha vida seria um puta comercial, estrelando eu, meus amigos, e Jordan Catalano. Ia acontecer.

Até que não aconteceu.

Agora, não me entenda errado. Eu até fiz algumas coisas dessa lista. Eu dirigi um lindo azul Beetle e acabei indo para a faculdade. Eu tenho mais sorte que a maioria. Mas onde estava os meninos bonitinhos?  Onde estava minhas roupas lindas? Quem pegou minha fantasia e jogou um saco de lixo em cima?

Nós vendemos essa ideia de como a vida vai ser para uma garota adolescente desde o berço. Para ser justa, isso é a propaganda, né? Vender a vida que você quer, não importa a idade? Bem, infelizmente, jovens garotas não vem através de toda essa merda. Nós internalizamos tudo. E é isso que faz a dor de ser uma garota adolescente ainda pior.

Eu fui jogada na merda bem cedo. Eu estava usando um sutiã com nove anos, lidando com ódio a mim mesma aos 10, e, aos 12, eu estava oficialmente afundada nela. E não foi embora. Entre 12 e (eu serei generosa e direi) 17, todo aquele lixo ficou circulando no meu sistema. Ele só evoluía, ou diminuía para de repente crescer com a menores das irritações. É isso que é ser uma menina adolescente: você está cheia de veneno. Na maior parte, você só envenena a si mesma, de novo e de novo, mas às vezes um pouco vaza de você e cai em outra pessoa.

Aos 12 anos, a maior parte das garotas entendem verdadeira tristeza. Doze anos, embora parece jovem para nós agora, parecia muito velho na época. Nesse ponto, já te disseram como você deveria ser, e você já percebeu que não estava correspondendo. Pior de tudo, quando você é uma menina, aos doze anos você provavelmente já esteve em uma situação na qual foi ameaçada sexualmente. Pense nisso por um segundo. De cabeça, consigo pensar em quatro momentos da vida, antes dos doze anos, no qual alguém passou da linha comigo. Quatro. Isso não é anormal.

Aos 13 anos, você já está preparada para se destruir. Quando você é uma garota adolescente triste, você tenta várias coisas, para ver o que funciona melhor para você. É como se você pudesse sentir o veneno borbulhando debaixo da sua pele, todo o tempo. Eu reconhecia isso em outras garotas. Eu podia ver elas puxando a própria pele, brigando com os outros, tentando tudo que elas podiam sonhar. Então elas se cortavam, se faziam vomitar, gritavam com suas mães, fumavam, bebiam, mandavam fotos para a pessoa errada, faziam coisas que talvez elas não quisessem fazer. Porque literalmente qualquer coisa, qualquer coisa que faria as coisas irem embora por cinco minutos, vale a pena.

Aos 14 anos, eu me sentia uma veterana. Na minha cabeça, eu tinha visto merda, cara. Eu tinha tido puta sentimentos. E honestamente, eu achava que as coisas estavam ficando melhor. Eu ainda estava um pouco quebrada por causa das coisas que aconteceram no fundamental, mas, ei, agora era colegial! Eu tinha sonhado com isso desde sempre! Tinha que ficar melhor, né?

Aos 15 anos, o otimismo tinha morrido em mim. Eu acordava todo dia com uma âncora no meu peito. Eu fui de aluna com notas B para uma que mal estava passando. Eu não saia com os meus amigos, porque de repente eles estava explorando, conhecendo gente nova, e eu não sabia como lidar com isso. Meu medo constante de homens não me fazia favores no meu relacionamento com meninos. Quando você se encolhe toda vez que eles movem a mão muito rápido, e acha quase impossível olhar eles nos olhos sem querer vomitar, você não é chamada para muitos encontros. Minha mãe não sabia o que fazer comigo, então eu passava o dia todo, todos os dias, trancada no meu quarto. Faculdade? De jeito não. Eu mal conseguia tirar a minha bunda da cama como um requerimento básico do dia-a-dia, como eu poderia querer continuar minha educação?

16 foi… diferente. Bom e ruim. Eu tinha acordado do mundo dos mortos, mas não é como se as coisas simplesmente desaparecem.  Eu estava indo bem na escola, eu comecei a pensar em faculdade de novo, eu até saia com os meus amigos às vezes. Mas as coisas não estavam bem internamente. Eu me entreguei para uns comportamentos nada saudáveis, o que passou completamente desapercebido. Tanto faz. Ainda é meio borrada para mim. O que eu posso dizer? Eu sou uma quase adulta, eu tenho o direito de não ter tudo solucionado.

Mas, daí, como o sol nascendo, 17 aconteceu. Ficou melhor. Eu trabalhei mais. Eu tinha objetivo e eu estava crescendo para esse desafio. Eu até gostava da escola e, às vezes, eu até fui em festas (e me diverti um pouco!). Eu ganhei controle o suficiente sobre comportamentos não saudáveis para começar a me curar, embora o processo tenha sido duramente lento. Eu finalmente entendi como era acordar e estar bem. Eu me formei no colegial e fui para faculdade da minha escolha. Não um feliz para sempre, mas eu vou salvar isso para outro dia.

Agora, se você está lendo isso, você pode estar confusa. Porque eu estou listando as coisas merdas que eu senti entre as idades de 12 e 17? Se eu odiei ser uma adolescente tanto assim, porque eu amo elas?

Porque mesmo com toda coisa que as adolescentes tem que lidar, elas ainda conseguem fazer algo absolutamente surreal, embora completamente simples: amar, sem vergonha.

Você sabe essas garotas que todo mundo adora jogar merda em cima? As que realmente amam algo? Essas meninas, cara. Elas pegam toda essa energia, todo o fogo circulando em suas veias e, ao invés de deixar isso destruí-las, elas escolhem amar, com garra. Seja uma banda, um livro, ou uma série de filmes. Elas fazem isso para se manter sanas, e nós ainda zuamos dela por isso. Garotas adolescentes encontram uma bóia para si mesmas em meio a um mar de ruína emocional, e seguram nisso com mais força que qualquer um.

Um dos modos mais populares de odiar meninas é reclamar das suas quedas “loucas” por membros de boy bands. Agora, deixa eu te dizer algo: essas estúpidas quedinhas são o que ajudam uma menina desenvolver sua sexualidade em um ambiente seguro que ela pode controlar. No mundo dela, ela pode ouvir One Direction e todas essas músicas sobre como ela é ótima, e como esses meninos bonitinhos e não-ameaçadores querem fazer ela se sentir especial. Porque isso é importante? Porque ninguém está forçando elas. Não tem um menino de 14 anos enfiando as mãos suadas dele embaixo da blusa dela sem consentimento. Esses meninos fantasia não estou convencendo a menina a mandar fotos nuas, só para poder mostrar para os amigos dele e chamá-la de vadia. No mundo fantasia de boy bands, a garota tem todo o poder. E nós precisamos parar de julgá-las por querer escapar para esse mundo.

Eu amo meninas adolescentes porque, mesmo quando elas se odeiam, elas amam outras pessoas. Eu lembro como eu me sentia, vendo outras meninas passando pelo que eu estava passando. Me arruinava. Eu queria desesperadamente ajudá-las, mas quando você está submergida também, não tem muito que você pode fazer. Meninas entendem, e elas querem ter certeza que ninguém vai sentir da maneira como elas se sentem. Eu vejo isso em sites como o Tumblr o tempo todo. É uma coisa linda.

Eu amo meninas adolescentes porque a sociedade adora culpá-las por tudo. Essas meninas ‘obcecadas por si mesmas’ são sempre o ‘problema’ da juventude de hoje. Aparentemente, essas meninas ‘superficiais’ que amam seus iPhones demais são o problema. O problema não é as pessoas condicionando elas a acreditarem que todo o seu valor está ligado a quantidade de likes que elas tiveram na sua última selfie. Não, você tem razão, vamos focar nas meninas que postam no Facebook demais. Ótimo.

Eu estou estudando cinema agora, então frequentemente me perguntam, “Que tipo de trabalho você quer fazer?”. Normalmente, eu não tenho uma reposta. Um bom trabalho, eu acho? Mas, pensando sobre isso, eu sei o que eu quero fazer: eu quero fazer filmes para meninas adolescentes. Histórias de meninas com controle sobre suas próprias vidas, que se rebelam, que pegam toda aquela energia e usam para algo, mesmo que não seja algo necessariamente positivo. Eu quero representar as garotas que eu amo tanto. Porque eu costumava ser uma dessas meninas, e eu sempre vou carregar parte disso comigo.

Então tente falar merda de meninas adolescentes perto de mim. Só tente.

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