Os Bolsonaros entre nós

Há alguns anos atrás, antes de feminismo e cultura do estupro entrarem no meu vocabulário, eu estava em uma festa de Halloween. Tranquilamente, curtia com os meus amigos, bebia e colocava o papo em dia, já que cada um estava no seu canto, estudando em faculdades diferentes.

Tinha um amigo meu nessa festa – a gente já estava se afastando por uma série de motivos, incluindo o fato de eu achar ele meio inconveniente e sem noção de espaço pessoal. Mas, naquela dia, entre conversas e tal, ele estava contando sobre uma festa da faculdade, daquelas que o povo viaja para o interior e fica em barracas. Entre suas peripécias, ele contou de uma menina, que ficou tão bêbada que desmaiou e como uns meninos levaram ela para dentro da barraca, para “aproveitar”.

Ele ria contando a história – se mencionou a palavra estupro ou não, eu nem mais lembro, nem se realmente era verdade (ele tinha um costume terrível de inventar histórias). Mas sei que não ri, nem briguei, nem disse nada, porque na época, nem saberia o que dizer. Só fiquei olhando para ele e senti que foi ali que morreu nossa amizade – na minha cabeça, anotei o nome dele, naquele lugar do cérebro onde as mulheres catalogam lugares perigosos, roupas que fariam te acusarem de ‘estar pedindo’, gente estranha que você não confia.

Esse menino talvez me estuprasse um dia – se eu estivesse bêbada, ou dormindo, ou mesmo não dizendo não ‘o suficiente’. Ou talvez não estuprasse, mas certamente não impediria outro cara de estuprar alguém. É uma noção terrível, a de que você não pode confiar nem nos seus amigos, que toda vez que estiver só vocês dois, aquela vozinha amedrontada vai dizer “e se ele..?”.

Em discurso no plenário da Câmara, Jair Bolsonaro disse que só não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela “não merecia”. Choveram comentários de ‘que absurdo’, ‘horroroso’, ‘animal’. Eu, quieta, só conseguia pensar naquele meu amigo – hoje, acho que está cercado de feminismo o suficiente para não ter mais aquelas opiniões, mas o fato era que, talvez, naquela época, ele concordasse com Bolsonaro.

Li o texto do Sakamoto e não podia ter me identificado mais. Olho ao redor e me pergunto quantas pessoas eu conheço que concordam também – nem as que falam, mas as que riram quando viram a notícia, ou fazem piadas de estupro no bar, ou ficam vendo fotos nuas que vazaram, se masturbando para o fato de que aquelas mulheres não queriam ser vistas.

Seria muito fácil se Bolsonaro fosse uma espécie rara, facilmente reconhecível – aquele padre que jura que Harry Potter é coisa do diabo, o homem que faz um comentário porco para mim na rua, os moleques que não deixam a gente jogar videogame em paz e ficam se insinuando, o apresentador que diz que as mulheres merecem apanhar mesmo.

Mas Bolsonaro foi o parlamentar mais votado do Rio de Janeiro, com 6,1% dos votos. Existe muita gente por aí que concorda com ele, quietinha, se escondendo entre meus amigos, conhecidos, colegas.

Na minha sala, tem 15 moleques que vivem fazendo piada de ‘viado’ – será que algum deles riu do comentário do Bolsonaro? Não sei e provavelmente não vou descobrir, mas fica a minha pergunta e reflexão – como fingir que tudo bem? Como seguir em frente e ignorar que existem milhares, se não milhões de pessoas que concordam com ele, que são meus amigos e familiares, gente que amo e confio? Gente que, no seu íntimo, acha sim que tem mulher que merece ser estuprada.

Bolsonaro disse muita merda e continuará a dizer – mas ele é só um homem, expondo o que muita gente dessa sociedade acha e não quer dizer em voz alta.

 

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