24/11/2014 - Por Reflexões

Os outros com o meu corpo.

Esses dias, estava deitada na cama mexendo no computador, quando me veio na cabeça a lembrança da primeira vez que passaram a mão na minha bunda. Foi na Barra do Sahy – ES (o local para onde íamos passar as noites de fim de semana, amigos, família – todo mundo que morava na minha mini-cidade), eu estava a talvez dez metros dos meus pais. Nós ficávamos sempre no mesmo restaurante, os adultos dentro do deque, os adolescentes do lado de fora, embaixo na areia.

Eu devia estar com uns amigos conversando e sendo adolescente, não lembro exatamente o que estava acontecendo na hora, mas lembro de sentir a mão encostar na minha bunda e de me virar. Era um homem muito mais velho do que os meus treze anos – não que um garoto da minha idade passar a mão na minha bunda fosse ser tranquilo. Mas me lembro de olhar pra cara dele e imediatamente caminhar até meus pais e me sentar na mesa em silêncio. Minha mãe, como sempre, olhou pra mim e de imediato soube que tinha algo errado. Eu desconversei e disse que só estava cansada – eu nunca fui de festa, então fazia sentido.

Fiquei sentada ali na mesa me sentindo suja, me achando estranha, tentando entender o que tinha acontecido e se a culpa era minha. Eu nunca tinha parado pra pensar no meu corpo de qualquer maneira, não de verdade. Eu nunca tive nenhuma neura, era magra e nunca fui de chamar atenção de garotos, pelo menos não até então. A partir daquele dia. tomei uma consciência do meu corpo que mudou não só a maneira com que eu me vestia, mas como eu me via. Durante anos, lutei com o medo de chamar atenção e o meu direito de colocar a bendita mini-saia de que eu gostava. Preferia o cabelo curto, porque parecia chamar menos atenção, e não gostava de usar blusas que marcassem o corpo. Eu tinha treze anos e tomar consciência do meu corpo daquela maneira foi péssimo.

Flashforward pros meses em que morei em Campinas. Era um domingo e todo fim de semana eu saía da minha rotina de “pensionato, cursinho, pensionato, estudo, pouco sono, cursinho” pra encontrar o meu então namorado. Naquele domingo, nós íamos ao cinema assistir a um filme do qual eu não me lembro mais. Saí de casa e fui até um ponto de ônibus perto de uma farmácia. Fiquei sentada lá esperando e um uno prata estacionou a poucos metros do meu ponto. Eu estava distraída lendo, até que resolvi olhar para frente. Dentro do carro, estava um homem. Levei alguns minutos pra conseguir realmente entender o que estava acontecendo. Mas o cara, olhando firmemente para mim, se masturbava. Eu engoli o vômito e saí caminhando em direção à farmácia. Fiz menção de pegar o celular e o carro disparou para longe. Eu nunca liguei pra polícia, e me arrependo até hoje. Volta e meia penso que talvez, se eu tivesse ligado, esse animal teria sido preso. Eu me pergunto se a minha ligação talvez pudesse ter evitado um estupro.

Anos mais tarde, durante uma festa, eu voltava do banheiro e uma mão nojenta rodou os dedos pela minha orelha e a puxou. A. Minha. Fucking. Orelha. O imbecil sussurrou algo que eu não escutei, me desvencilhei e saí de lá o mais rápido possível. Foi um dos atos mais sem sentido que eu já vi, mas o jeito como o cara segurou minha orelha ficou comigo. Esse foi o episódio mais tranquilo que tive, no quesito homens tentando me agarrar à força, mas foi também o que me fez acordar para o machismo nosso de todo dia. Eu já sabia, desde aquele carnaval, que tinha algo de muito errado no mundo; eu suspeitava que a culpa não era minha, mas eu nunca tinha parado e realmente olhado para a verdade sobre o meu corpo.

O meu corpo é meu, e só meu. No entanto, desde muito cedo, ele pertence aos homens.

Me perguntam por que eu sou feminista, me dizem que eu exagero, que o meu feminismo me prejudica. Eu digo que o meu feminismo, esse que estava dormente desde criança, que vencia a luta interna sobre o meu direito à mini-saia ou não, que me faz ranger os dentes quando penso no uno prateado parado em frente ao ponto de ônibus, é o que me dá força. É ele que impulsiona o meu trabalho, é ele que me faz levantar de manhã, de jeans e camiseta, e caminhar para a pós mandando os olhares e as merdas que escuto na rua se foderem.

Minha experiência não é nem de longe a pior. Perto da realidade de tantas de nós, esses três momentos são brandos. São corriqueiros. São o dia-a-dia.

Quando vejo pessoas defendendo o “direito à expressão” e o “direito de ir e vir” do pick up artist Julien Blanc (eu não consigo colocar em palavras ou quanto eu odeio o termo “pick up artist”), dizendo que o governo não pode negar visto sem ter fundamentos legais para isso, dizendo que se um grupo religioso se unir, fizer uma petição na internet contra a vinda de um líder de uma religião oposta, o caso de Julien Blanc terá abrido um precedente negativo, eu engulo o vômito. Leis existem para serem cumpridas, mas nenhuma lei está acima do meu direito a proteção.

E o meu direito de ir e vir sem ser tocada, assediada, abusada, enganada ou ameaçada? Esse cara faz seminários sobre como “pegar” mulheres – mesmo que elas não queiram. Não significa sim para esse imbecil. E o direito das estudantes de medicina de frequentarem a faculdade, e as festas, sem serem agredidas pelos colegas homens? E o direito delas de conseguir justiça?

Então não, não é a mesma coisa. A única relação entre religião e Julien Blanc é que os dois são símbolos de opressão, que os dois têm o poder de oprimir, assediar, abusar e desrespeitar o meu corpo e a mim e passarem ilesos. O homem sempre vai ter quem o defenda da acusação, a mulher está sempre sozinha. Menos neste momento, menos quando o país negou o visto a Julian.

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