14/09/2014 - Por Reflexões

Pela extinção da menina-mulher

No início dessa semana, me distraindo com o meu computador, acabei me deparando com um post  no Tumblr, que falava sobre o absurdo de mulheres serem consideradas mais bonitas aos 15 anos do que aos 40. A reclamação vinha acompanhada de uma história, que traduzo livremente aqui:

“Quando eu tinha 12 anos, meu professor de saúde nos falou que ele achava que meninas eram mais bonitas quando tinham 14, 15 anos – e que elas jamais seriam tão bonitas para o resto de suas vidas quanto eram nessa idade. Na época, me assustou a ideia de que eu não continuaria bonita – quando eu fiquei mais velha, me assustou que ele não tinha vergonha em dizer isso, e que muitos homens também não têm”.

Como a vida faz às vezes, nem dois dias depois, caiu na internet o catálogo da Vogue, acompanhado de um ensaio fotográfico que deu o que falar. Ouvi, claro, que a maldade está nos olhos de quem vê – mas praticamente todas as pessoas que eu encontrei ficaram chocadas, não conseguiam entender como alguém achou que isso era uma boa ideia. Meninas de talvez 10 anos, no máximo, poses sensuais, insinuando tirar a blusa, se esticando só de biquini, tudo em um catálogo de sapatos, impensável.

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Mas, de tanto olhar para aquele catálogo, cheguei a uma conclusão pior ainda – que aquilo poderia ser considerado bonito. Abro qualquer revista de moda e sei as dicas que vou encontrar – como ficar mais nova, com a pele lisa e sem marcas do tempo, sem um pelo no corpo, com olhos grandes e inocentes, como atrair homens sendo magra, delicada, feminina, submissa. Como voltar a ser menina.

Se esse é o ideal que esperamos de uma mulher – mais bela conforme mais jovem aparentar, mais inocentemente sensual, mais Lolita – por quanto tempo realmente podemos esperar que esse ideal seja segurado pela linha da maioridade? Se já se diz que meninas de 15, 16 anos já podem ser consideradas mulheres, se um juiz pode dizer que uma menina “aparenta ter mais idade” e portanto, perdoa o pedófilo?

Se olham para mim, rosto de menina e falam como eu sou linda, que isso atrai homens, que é ótimo eu não parecer minha idade – como podemos ficar chocados com as fotos da Vogue, como se só agora percebemos que, quando descrevemos a mulher ideal, muitas vezes descrevemos uma menina.

Pesquisei um pouco sobre o livro Lolita para escrever esse texto, já que é o exemplo mais famoso da tal de sensualidade infantil – e nem sei porque fiquei surpresa ao ver a menina descrita incansavelmente como ‘menina-mulher’, uma ninfeta sensual, que seduz sem saber que é sedução.

O fato é: no início do livro, Lolita tinha 12 anos. A palavra mulher não tem espaço numa descrição sobre ela – ser ou não sensual, se vestir da maneira que seja, não apagam o fato de estarmos falando de uma criança. Não dá pra inventar expressões ou palavras para esconder esse fato – porque, assim, começamos a inventar as regras do que é ser mulher. Já é mulher se já tem peito, se já acha que quer sexo, se sorri de tal maneira, se vai em um ensaio da Vogue levantar a blusa porque o fotográfo mandou.

A página Pediatria Integral  resumiu tudo isso melhor do que eu poderia, então termino com uma citação deles: “Não, meninas, parem de brincar. Vocês têm que ser mini mulheres, mini peruas, fúteis, magérrimas, fazer dieta, maquiarem-se, comprar roupas e acessórios. Tornem-se objetos de prazer e admiração do mundo masculino. Acreditem que para ter valor social precisam ter em vez de ser, especialmente ter beleza comprada a alto custo. Estreitem a definição da sua identidade, tão complexa e fascinante, renunciem ao seu infinito potencial para restringir seu valor ao quanto de apelo sexual possuem. Acreditem que sexualidade é aparência, é consumo, é performance. Esqueçam o afeto, o precioso senso de intimidade. E isso tudo… aos 8 anos.”

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