27/07/2017 - Por Reflexões

Ponto de Vista

Um relacionamento abusivo comigo mesma

Na rua, na internet, na escola, no trabalho e até mesmo dentro de nossas casas muitas vezes encontramos relações abusivas entre as pessoas: um namorado agressivo, um marido ciumento, uma esposa viciada em controle, aquele tio machista que ninguém suporta… Eu aposto – posso até dizer que sei – que várias das mulheres que lerem esse texto já passaram ou vão passar por um desses relacionamentos tóxicos. Eu mesma já enfrentei alguns.

Mas e quando essa atitude abusiva vem de dentro de nós? E quando somos nós mesmas as nossas vilãs? Essa semana, depois de alguns dias ruins, percebi uma coisa que me assustou genuinamente: eu estou em um relacionamento abusivo. 

Mas não com meu namorado. Comigo mesma.

Percebi que não importa o quanto meu namorado diga que eu estou linda, que sou inteligente e que vou conseguir tudo que almejo no meu futuro, eu sempre penso – de forma automática e, muitas vezes, pejorativa – que é mentira, que eu sou horrível, burra e que não merecia nada do que já conquistei. Percebi também que há muitas semanas eu cubro com uma toalha o espelho que fica de frente para o chuveiro quando vou tomar banho, pois tenho vergonha do que vejo nele. E também percebi que já faz muito tempo que não toco meu corpo, pois tenho vergonha do que sinto.

Isso tudo não só por que não gosto tanto do meu corpo (que é meio rechonchudo, confesso), mas por que eu não gosto do que tem por dentro. Não gosto dos meus pensamentos, dos meus sentimentos, da minha personalidade, das minhas mudanças de humor. Não gosto da minha depressão, da minha ansiedade, da voz que eu ouço gritando na minha cabeça… Não gosto de nada disso.

Acho que nunca gostei. Nunca aprendi a gostar.

Autoestima é uma coisa engraçada: ninguém ensina ninguém a gostar de si mesmo. Nossos pais e mães não nos ensinam a amar o que vemos no espelho. – acredito que isso aconteça porque eles mesmos não gostam do que veem nele – Ninguém no mundo aprende a se amar desde pequeno, muito pelo contrário, amar-se é considerado arrogância.

Talvez seja exatamente por isso que muitas mulheres jovens como eu aceitam estar em um relacionamento abusivo com seus parceiros. Sempre que meu parceiro diz que eu sou incrível eu penso: “Por que ele gosta tanto de uma coisa horrível e nojenta como eu?”. Eu tendo a sempre achar que ele é bom de mais pra mim, que eu não mereço alguém tão bom comigo e que ele deveria me desprezar como todos os outros fizeram. 

Olha só! Eu mesma me saboto! Eu mesma acho que merecia estar em uma relação abusiva!

Por muito tempo eu acreditei que o amor era pra ser agressivo. Eu nunca tinha conhecido o amor como o conheço agora. Todos os meus relacionamentos anteriores foram tóxicos e quando encontrei meu atual parceiro e ele foi gentil eu achei estranho! Quer dizer… Por que ele não está sendo controlador? Por que ele está tratando tão bem uma pessoa como eu? Por que ele não está gritando comigo?

Até hoje, depois de três anos, alguns resquícios desses pensamentos pairam na minha mente.

Eu odeio falar sobre isso tudo, odeio mesmo. Normalmente as palavras escritas nesse texto ficam afundadas em algum lugar escuro na minha mente, onde não ficam acessíveis. Mas eu vejo tantas mulheres como eu sentindo a mesma coisa, passando pelas mesmas situações sem se dar conta e sofrendo por isso que pensei… “Talvez eu possa ajudá-las enquanto ajudo a mim mesma”.

Então eu digo à vocês, mas também à mim: Pare de achar que não merece o que conquistou. Pare de acreditar que é uma pessoa ruim, alguém desprezível. Pare de evitar os espelhos, mas acima de tudo: pare de ser uma péssima companhia pra si mesma. Comece a treinar o amor próprio, não aceite de si mesma menos do que merece.

Afinal, vamos viver as nossas vidas inteiras, até o fim, na companhia de nós mesmas… É melhor que esse processo seja agradável, não acha?

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