04/09/2015 - Por Reflexões

Por um mundo com mais choro e grito

Faz um tempo, nem lembro mais quanto, que eu e minha família estávamos discutindo sobre o Estatuto do Nascituro. Era um projeto ridículo e uma das coisas ridículas que ele queria era proibir o aborto em todos os casos – incluindo casos de estupro, risco de vida para a mãe e fetos sem cérebro.

Me lembro de defender com todas as forças o absurdo disso, e até começar a chorar. Minha mãe logo perguntou: “por que você se importa tanto?”.  A questão é – por que eu não me importaria? Porque não posso ficar emocional e chocada com uma coisa dessas?

Não sei você conhece a noção de deboísmo – a ideia de que temos que ficar de boa com tudo, que isso é a melhor maneira de se viver, que não devemos nos meter em treta. Que se importar, ficar emocional, brigar e se envolver demais, só leva a perguntas confusas, como as da minha mãe, e à infelicidade.

Nesse mundo apático, existe essa ideia de que se manter distante das coisas é a melhor maneira de viver – temos que “respeitar as opiniões” e “não deixar as coisas nos atingirem”. Mostrar emoções, deixar claro que você se importa, é visto como algo de pessoas desequilibradas, exageradas. Começar a chorar em qualquer discussão é visto como sinal de derrota – como você ousa se importar com o assunto que está discutindo? Como ousa não ser uma pessoa puramente lógica?

É algo utilizado em qualquer discussão sobre opressões – dizem que as coisas devem ser provadas com fatos lógicos, devem ser discutidas com calma. Mulheres que ficam nervosas quando falam sobre assédio, por exemplo, estão “atrapalhando a discussão”, como se não houvesse espaço nessas questões para subjetividade. A sua vivência e trauma com aquele assunto não é o suficiente, segundo essas pessoas que se consideram tão evoluídas – “temos que falar dos fatos”, “precisamos ver os números”.

Claro que essas pessoas não querem ver os números, até porque eles comprovam a vivência dos oprimidos – mas só essa falta de consideração completa com a subjetividade do outro já é um problema. São as vidas e sentimentos das pessoas que estão em jogo – ver alguém se emocionar com uma discussão não devia ser algo estranho, mas sinal de como aquele assunto é algo importante e próximo para ela.

Defendo, aqui, a necessidade um mundo mais subjetivo. Com mais choro e grito, gente se deixando sentir e não sufocando tudo para não causar problemas. E, principalmente, mais gente respeitando a subjetividade alheia – é preciso entender que todos os números e análises do mundo não podem te ensinar o que é estar na pele de um oprimido por um segundo sequer e que, por isso, a vivência dessa pessoa vale mil vezes mais do que qualquer coisa que você possa dizer.

Bem, fecho o texto apresentando o tretaismo, para quem não conhece, uma alternativa ao deboísmo. O segundo mandamento dele é o ponto em questão: “Não só deixarás pequenos problemas do dia a dia te atingir, como irá tretar para resolvê-lo.”

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