22/09/2016 - Por Reflexões

Porque as mulheres têm todo o direito de ficarem com raiva

Essa semana a Datafolha divulgou uma pesquisa que diz que um em cada três brasileiros acredita que, nos casos de estupro, a culpa é da mulher. Segundo o levantamento, 33,3% da população brasileira acredita que a vítima é culpada e, entre os homens, o pensamento ainda é mais comum: 42% deles dizem que mulheres que “se dão ao respeito” não são estupradas.

Ótimo. É exatamente o tipo de notícia que eu sabia que era verdade, mas ainda dá desgosto de ver e saber que, todos os dias, quando ando na rua, vou pro trabalho ou vou pra aula, esbarro em gente que me culparia se eu sofresse alguma violência. Mas eu não quero falar sobre a cultura do estupro hoje – se alguém precisar entender melhor porque a culpa nunca é da vítima: um texto aqui, outro aqui e mais um para deixar a coisa clara. 

Em vez disso, gostaria de falar sobre um assunto que tinha começado a explorar antes da notícia e que acho relevante para o momento: a relação que as mulheres tem com a raiva.

Notícias como essa me deixam com raiva. Triste, chateada, desesperançosa, também – mas principalmente com muita raiva. Raiva de ver como as pessoas não respeitam o corpo, a autonomia e a dignidade da mulher. Me deixa furiosa saber que tem gente que pensa assim e alguma dessas pessoas são pessoas próximas a mim.

Mas nós mulheres bem sabemos que ficar brava, gritar, xingar, não costuma ser uma boa estratégia – ao contrário. Em discussões sobre assuntos como esse em que fico brava, logo escuto que “não sei me controlar”, “não respeito as opiniões”, “não sei debater”.

E não se enganem, isso é um problema de sexismo – se preparem e leiam o resto, que eu vou explicar o motivo. Praticamente tudo a partir de agora é uma tradução do texto “Does Your Daughter Know It’s OK To be Angry?”(Sua filha sabe que não tem problema ficar brava?), escrito por Soraya Chemaly. Quem quiser ler o texto na íntegra, no original em inglês, está aqui.

Para começar, existem estudos que comprovam que, quando homens ficam com raiva, as pessoas tendem a perder confiança e aceitar a opinião do homem. Enquanto isso, quando as mulheres ficam com raiva, o oposto acontece – estudos também mostram que as pessoas trabalhariam com homens agressivos ou que soam raivosos, mas não com mulheres que agem dessa mesma maneira.

Os estudos só confirmam o que a maioria das mulheres já sabem, o que nos leva a nos policiar ainda mais. De acordo com a Associação Americana de Psicologia, embora homens e mulheres sintam raiva e vergonha relacionada a essa raiva, os sentimentos se expressam de maneira diferente. Para os homens, raiva reforça expectativas de gênero tradicionais, enquanto vai contra as expectativas para as mulheres, o que acaba gerando grande ansiedade.

Meninas têm mais tendências a entender seus sentimentos de raiva como “errados” e mais, como incompatíveis com suas identidades enquanto mulheres. Elas também tendem a entender que mostrar raiva coloca seus relacionamentos em risco e pior, tendem a associar raiva com a ideia de que isso a tornam não-atraentes (em um mundo que nos diz constantemente que não ser atraente é uma das piores coisas que pode acontecer com uma garota).

“Regras de gênero”, dizem as escritoras Deborah Cox, Karin Brucker e Sally Stabb,”ajudam a desviar a raiva feminina“. O que elas querem dizer é que as mulheres deixam de lado sua raiva que, como meninas jovens, acabam perdendo até a reconhecer sua raiva como raiva. Meninas são ensinadas – na escola, em casa – que a usar métodos indiretos para lidar com sua raiva. Por exemplo, não é “educado” falar alto, é “feio” xingar e gritar. A maior parte das garotas se adapta, internalizando seu desconforto e ira, muitas vezes com um custo pessoal alto.

Ansiedade, comportamento passivo-agressivo e depressão são consequências comuns. Sarcasmo, apatia e até ser maldosa já foram ligados a pessoas que internalizam sua raiva. Além disso comportamentos como mentir, faltar a escola, bullying e até ser socialmente estranho são, muitas vezes, sinais que um adolescente não está lidando com sua raiva de maneira construtiva.

E muitas garotas realmente perdem a habilidade de reconhecer sua própria raiva – seu coração está acelerado? Ela cerra as mandíbulas a noite? Chora por nenhum motivo ou ri durante conversas difíceis? Muitos comportamentos como esse são compreendidos apenas como uma fase, ou como consequência natural dos “hormônios femininos”.

Mas se é uma fase é uma que, para muitas mulheres, nunca termina – são vidas inteiras sem expressar raiva e acreditando que não tem permissão ou habilidade para expressar sem consequências para sua vida.

Ao serem ensinadas desde cedo a colocar as necessidades dos outros a frente das nossas – e serem recompensadas por isso durante sua vida adulta – muitas mulheres acabam com problemas físicos, psicológicos e emocionais. Problemas ao lidar com a raiva contribuem para estresse, tensão, ansiedade, depressão, problemas para dormir, dores de cabeça e nervosismo excessivo. Hoje, estima-se que 30% de todas as garotas adolescentes têm distúrbios de ansiedade.

Além disso, entre as idades de 12 e 15 anos, o número de garotas que tem depressão triplicou (essa taxa é três vezes maior do que para meninos da mesma idade). A sensação de impotência e raiva também contribuem para o desenvolvimento de distúrbios alimentares. As taxas de suicídio para garotas entre 10 e 14 anos triplicou nos últimos 15 anos. Mais do que isso, mulheres não estão deprimidas só na adolescência – elas crescem para ficarem mais deprimidas aos 20, 30, 40 e por aí vai.

Outra coisa interessante (se por interessante você entender “absolutamente e ridiculamente óbvio”) é que homens e mulheres ficam bravos por motivos diferentes. Um estudo mostrou que mulheres tem três motivos principais para sentir raiva, que homens não tem: a sensação de impotência, a injustiça e a irresponsabilidade de outras pessoas.

E porque será, não é mesmo? Desde cedo, garotas ouvem pessoas dizendo como devem se vestir, como seus corpos devem ser, como devem se comportar. Somado a isso, crescendo logos percebemos que estamos vulneráveis fisicamente, tendo sofrido algum ataque ou não (aquela pesquisa da Datafolha também trouxe a informação “chocante” que 85% das mulheres do país temem violência sexual). O sexismo diário, a falta de representatividade, e a repressão à sexualidade  – principalmente para meninas não-heterosexuais – certamente não ajudam a tornar as mulheres mais felizes e confiantes.

Enquanto isso, a sociedade diz que a raiva das mulheres é irracional. Ao contrário, diante desse cenário de impotência, falta de dignidade e respeito, e marginalização, como elas poderiam não estar bravas? Porque todo mundo não está com raiva da situação?

Precisamos nos lembrar – e lembrar as garotas ao nosso redor – que é aceitável sentir raiva. Que é uma emoção que todo humano tem direito de sentir e expressar. Talvez não ajude a ganhar amigos ou discussões, mas não é aceitável esconder os próprios sentimentos para deixar as pessoas ao nosso redor mais confortáveis, principalmente quando nossa raiva é necessária e perfeitamente justificável.

Para terminar, vale lembrar que mulheres negras ainda lidam com o racismo diário em cima de tudo isso e, mesmo assim, costumam ser o grupo que é mais chamado de irracional quando ficam com raiva.

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