06/06/2014 - Por Reflexões

Pretty, Katie Makkai

Quando eu era apenas uma garotinha, eu perguntei a minha mãe, “O que eu serei? Eu serei bonita? Eu serei bonita? Eu serei bonita? O que vem depois? Ah, certo. Eu serei rica?” O que é praticamente bonita, dependendo de onde você compra suas roupas. Essa é uma questão que infecta desde a concepção, indo até o sangue, o ar e as células. A palavra pende do coração de nossas mães, num grande holofote de preocupação.

“Eu serei desejada? Valerei a pena? Serei bonita?” Mas a puberdade me fez parecer com um criatura deformada: dentes dispostos em ângulos de ficções científicas, nariz torto, cara de burro e marcas de espinha pintadas pelos hormônios. Pobre mamãe.

“Como isso pode acontecer? Você terá uma pele de porcelana assim que pudermos ir a um dermatologista. Você chupou o dedo. É por isso que os seus dentes ficaram desse jeito! Acertaram seu rosto com um frisbee quando você tinha 6 anos. Se não fosse por isso, seu nariz teria ficado bom!”

“Não se preocupe. Vamos consertar isso!” Ela dizia, virando meu rosto, como se fosse uma verdura que ela talvez comprasse.

Mas isso não é sobre minha mãe. Não é sua culpa. Ela também foi criada para acreditar que a melhor característica que ela poderia garantir para sua filhinha esquisita era uma fachada comerciável. Aos 16, fui mergulhada em pomadas, remédios e peróxidos. Dentes contidos dentro dos aparelhos de metal. Deitada numa cama de hospital, rosto envolto com gaze, cuidando do mais novo nariz que o cirurgião esculpira.

A barriga inchada, por causa dos 2 litros de sangue que eu tinha engolido em anestesia e cada revirada convulsiva do meu intestino parecia gritar para fora do meu corpo, “O que você deixou que fizessem com você?!”

Enquanto isso, o interminável barulho de pingos, como se o soro estivesse pingando beleza líquida em meu sangue. “Eu serei bonita? Eu serei bonita? Como minha mãe, desembrulhando o papel de presente para revelar a nova filha que aqueles $10.000 haviam comprado para ela? Bonita? Bonita?”

E agora, eu não vejo meu próprio rosto durante 10 anos. Eu não vejo meu próprio rosto há 10 anos, mas isso também não é sobre mim.

Isso é sobre o circo de auto-mutilação do qual nos fazemos de palhaças. Sobre mulheres que vão percorrer 30 lojas em 6 shoppings para encontrar o vestidinho certo, mas que não têm a mínima ideia de onde encontrar satisfação ou como ser feliz, passando pela vida algemadas àquelas sacolas de shopping, presas àquelas 3 sílabas.

É sobre homens girando em banquinhos de bar, tristemente tentando seduzir, e todos que irão sozinhos para casa hoje à noite, derrubados por que não houve gente suficiente que os acharam adequados para transar.

Isso é sobre minha possível futura filha. Quando você me abordar, já cheia de inseguranças, implorando, “Mãe, eu serei bonita? Eu serei bonita?” Eu vou afastar essa pergunta de sua boca, como batom barato, e vou responder, “Não! A palavra ‘bonita’ não é capaz de dizer tudo que você vai ser e nenhum filho meu estará contido nessas seis letras. Você vai ser inteligente, criativa, incrível. Mas você jamais será meramente bonita.”

Tradução por: Vitória Zeponi.
Ilustração por: Pétalla Menezes.

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