03/10/2014 - Por Reflexões

Professores, machismo e opressão

Oi, Professor.

Eu me lembro de quando eu era pequena e cheia de opinião, e em alguns momentos você achava que eu tinha opinião demais e passava a vez para alunos meninos que não queriam falar ou ler de verdade.

Lembro que anos mais tarde, já no segundo grau, você colocou alunas em situações constrangedoras. Falou das coxas da minha amiga como se ela fosse um pedaço de carne, dividiu a sala em meninos e meninas e pediu que montássemos o garoto e a garota perfeita a partir de partes do corpo dos colegas.

Nos anos de cursinho, escutei todas as piadas homofóbicas, misóginas e racistas que poderiam existir. Elas passavam despercebidas, misturadas à matéria de estudo, para descontrair a aula e chamar a atenção do alunos.

Algumas semanas atrás, li uma matéria da Folha sobre como os professores do cursinho estavam – coitados – sendo coagidos a pararem com as brincadeiras de conotação homossexual e sexista por uma patrulha do politicamente correto. Pobre professores de cursinho homens, em maioria brancos, cis e hetero, que se sentem oprimidos quando as alunas e alunos exigem que eles se adequem a uma sociedade pluralizada como a que vivemos. Senti que estávamos vivendo uma evolução no modo como os jovens veem e abordam o mundo. Exigir mudanças faz parte da transformação da qual tanto precisamos. Tive esperança.

Na faculdade, você comentou sobre as minhas pernas na frente da sala, não parou de olhar para o meu decote e, num caso extremo, você foi demitido por dar um tapa na bunda de uma outra aluna.

Na pós você, muito simpático e bem mais velho, parecia ser o tipo de cara tranquilo. Mas os absurdos não paravam de sair, comentários engraçados que sempre circulavam entre misoginia, homofobia e sexualização desnecessária.

A sala, em grande parte, permanecia em silêncio. Com o eventual sorriso ou risada baixinha. Ao explicar o que era uma hipérbole, você usou o seguinte exemplo: uma mulher gostosa desce a Consolação na sua direção e tem peitos grandes, você comenta com um amigo mais tarde que ela tinha vinte quilos em cada peito. Segurei a minha revolta por medo de repressão.

Se para mim, do alto dos meus vinte oito anos, esse tipo de comportamento me incomoda profundamente, como se sente uma adolescente passando pelo já tão traumático período de vestibular?

Algumas semanas mais tarde, veio a piada de estupro. A aula tinha corrido normalmente, sem grandes problemas no quesito misoginia, até o último minuto. O senhor falou de Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. Disse, rindo, que os caras poderiam pelo menos estuprar durante o dia, assim não atrapalhariam o sono do personagem. A sala gargalhou, eu apertei a minha bolsa com raiva.

“Estupra, mas não mata.”

Alguém no começo da sala soltou a frase, para seu deleite. Eu tive vontade de vomitar e você falou sobre como o mundo era mais legal antes do politicamente correto. Desde esse dia, ir à sua aula se tornou motivo de embrulho no estômago e insônia. Me é fisicamente difícil lidar com toda a sua merda. Escondido sobre um discurso de esquerda liberal, que lutou contra a ditadura, você transparece a misoginia que talvez nem reconheça.

Professor, ninguém está dizendo que você não pode usar humor para deixar as aulas interessantes. Estamos pedindo para que você seja melhor. Faça uma piada em que o punch line é o opressor, não o oprimido. Ou apenas dê a matéria da melhor maneira possível – humor opressor não é bem vindo. A aluna, ou aluno, que está sentada na sua frente está ali para aprender e não para um show stand-up. Mas, principalmente, ela não está ali para se sentir oprimida pelo professor.

Ao fazer uma piada sobre como alguém é afeminado, fracote, age como uma mulherzinha, comeu a fulana, como alguém é dada, não se dá ao respeito, é gay (em tom pejorativo) e etc, você não só está oprimindo e agredindo moralmente esta pessoa, você está abrindo precedente. E não, o professor não tem o direito de se sentir oprimido quando um aluno reclama de seu comportamento impróprio. Parabéns, professor. Você é um adulto completamente formado (ou pelo menos a gente espera que seja), você trabalha duro durante longas horas do dia e provavelmente aguenta um bando de moleques mimados todos os dias, mas você não tem o direito de desrespeitar os alunos e querer ser respeitado.

A tal “patrulha do politicamente correto” nada mais quer que igualdade de direitos. Quer poder entrar em sala, sentar e assistir a aula sem se sentir coagido e assustado pelo fato de ser mulher, homossexual, ou trans. Quer que a sala de aula seja um ambiente tão acolhedor para eles quanto para os colegas homens, heterossexuais e cis. É um movimento que reflete que toda a luta das gerações anteriores na tentativa de construir uma sociedade mais igualitária está dando certo, mostra que uma parcela dos jovens brasileiros consegue não só identificar, mas lutar contra o preconceito e a desigualdade.

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