20/02/2018 - Por Reflexões

Relembrando: O carnaval e o assédio

Quem não me conhece não imagina o quanto eu gosto do carnaval – é uma época de intensa preparação para mim, inúmeras visitas à 25 de março, planejamento de fantasias, debates sobre os melhores blocos, encontros com os amigos para montar as fantasias e até uma dieta balanceada para evitar doenças. É uma das minhas festas favoritas do ano inteiro e sou apaixonada pelo colorido da rua, das festas sem fim, do clima próprio dessa época do ano.

Agora que ele finalmente acabou – com esse último fim de semana sendo os últimos blocos pós-carnaval – me pediram para escrever um pouco da minha impressão das ruas em relação ao nosso velho conhecido: o assédio.

É difícil pra mim comparar com outros anos e mais difícil ainda dizer com certeza como foi esse ano dentro da minha experiência – não ajuda o fato de que eu não escondo que gosto de ficar louca no carnaval e meu relato não tem a seriedade da sobriedade.

Mesmo assim achei que valeu contar um pouco a minha experiência, por mais limitada que seja. Acho que tudo começa até na escolha de blocos: como regra, eu e meus amigos só vamos em blocos LGBT – não só porque a maioria pertence a esse grupo, mas porque é melhor de todas as maneiras, pelo menos para nós. A música é mais agradável, as pessoas mais simpáticas, as opções para beijos na boca obviamente maior – até para quem gosta do sexo oposto, geralmente encontramos com facilidade pessoas para dar uns beijos nesses blocos. Assim, é fácil esquecer que em outros lugares, em outros blocos, tem gente que apanha, piadas são feitas, homens têm medo de andarem de mãos dadas e mulheres têm medo do assédio e desrespeito.

Acho que o melhor exemplo é nosso bloco de sábado – o Minhoqueens – que, por motivos de uma infeliz programação da Prefeitura, encontrou de cara com um bloco hétero, mas hétero mesmo, levando a trocas de olhares infelizes entre eles e o pessoal LGBT vestido de todas as cores do arco-íris. Se existia clima de hostilidade, foi aquele, e o melhor que fizermos foi simplesmente nos afastarmos.

Assim, a rua, um espaço público que deveria ser dividido por todos, passou de área de festa e alegria para um ambiente de perigo em um piscar de olhos, então preferimos ser esmagados pela multidão do que avançar sozinhos e encontrar com pessoas que claramente não estavam felizes em nos ver.

Nesses blocos, geralmente a gente se esquece do assédio também – embora, claro, não faltaram homens puxando nossos braços, insistindo um pouco demais, principalmente na Faria Lima, onde fomos uma vez apenas e depois evitamos a região. O pior sempre era a volta para casa: uma amiga minha foi todos os dias de Carnaval sem blusa, apenas com fita isolante nos mamilos e chovia comentários na caminhada de volta pra casa pelo Centro de São Paulo. Dizer que ela não tinha interesse era pouco, afinal ela namora uma mulher.

Ainda assim, era difícil não sugerir para que ela colocasse uma blusa – mesmo eu, em dias que fui só com sutiã, sentia que seria melhor me cobrir, enquanto não estávamos na proteção da multidão dos blocos. Não o fizemos nenhum dia – os comentários foram ignorados, e como estávamos em um grupo grande, ninguém ousou abordar diretamente. Os poucos bêbados (geralmente moradores de rua, no fim da noite, quando já estávamos sentados no nosso boteco favorito para terminar a noite) foram expulsos delicadamente pelos donos.

Apesar de tudo, o Carnaval é uma das épocas em que mais se fala sobre o assédio – era comum repetirmos “não é não” quando alguém nos irritava (mesmo entre os meninos), e pessoas inconvenientes sempre eram expulsas do ambiente, pelo menos enquanto estávamos em grupo.

O Carnaval, com as festas até de madrugada e as multidões às ruas, sempre me dá uma sensação maior de segurança, acreditem ou não. Apesar de ser uma época cheia de problemas em relação ao assédio, é um dos poucos momentos que me sinto mais livre para ousar ocupar a rua, para me vestir mais livremente, para viver realmente de maneira pública.

É o resto do ano que me preocupa, honestamente, quando eu escolho sempre me cobrir, uso casacos quando não está frio, evito ruas escuras porque sei que, por mais que me digam que a rua é pública, ela não verdadeiramente me pertence. Para mim, que amo de paixão festas de rua e ficar curtindo a noite toda, é uma tristeza sem fim ter medo de curtir como realmente gostaria – é a sensação de que, no resto do ano, a gente tende a esquecer que o assédio nunca é aceitável, que não é só o Carnaval que nos permite sair às ruas, vestidas como quisermos, com a liberdade para rir, dançar e beijar da maneira que acharmos melhor.

Com o ano “finalmente começando”, bem que podíamos pensar em campanhas não para um #CarnavalSemAssédio mas para um #2018SemAssédio, não?

Se vocês tiverem experiências similares (ou diferentes!) nesse Carnaval e quiserem que a gente poste aqui, é só nos enviar por e-mail (contato@naoaguentoquando.com.br) e publicamos, anonimamente ou não (como preferir).

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