21/09/2017 - Por Reflexões

Reorientação da consciência

O assunto mais recente do momento é a tal da liminar que abre uma brecha para que psicólogos possam oferecer aos pacientes uma terapia de “reorientação sexual” – tratamento este que é proibido pelo Conselho Federal de Psicologia desde 1999. Outrora, a reorientação sexual incluiu tratamentos como a lobotomia e a castração, tratamentos hormonais como estimulantes sexuais e choque farmacológico e diversos métodos como terapias de aversão, hipnose e eletrochoque. Inclusive, o governo da Alemanha Nazista tentou “curar” a homossexualidade fazendo com que os “pacientes” mantivessem relações sexuais forçadas com prostitutas (quando esse tratamento não funcionava, os pacientes eram castrados, para que fossem impedidos de sentir prazer sexual). Por esses motivos, no dia 17 de Maio de 1990, a Assembléia geral da OMS retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais, fazendo com que a mesma não pudesse mais ser tratada como um distúrbio.

Pois bem, até agora falamos sobre um tempo onde ainda havia muita desinformação a respeito da diversidade sexual, vamos falar um pouco sobre a atualidade: O cenário em que nos encontramos é conhecido como a Era da Tecnologia, da informação avançada, da disseminação e da diversidade da cultura, do conhecimento desenfreado e das múltiplas conexões entre os seres humanos e em pleno 2017 ainda estamos falando sobre reorientação sexual. Ainda temos que tentar convencer alguns grupos de pessoas que a homossexualidade não é uma doença. Ainda temos que falar sobre preconceito. Além de tedioso, isso é completamente absurdo. Essa atual liminar consiste em permitir que psicólogos possam tratar a homossexualidade como um distúrbio e autoriza que eles pratiquem terapias de reorientação sexual para “curar” pacientes que estiverem de acordo com esta prática, sem que possam ser punidos por isso. A justificativa mais ouvida para essa baboseira toda é: “a homossexualidade provoca diversos traumas psicológicos como depressão, comportamento suicida e ansiedade social”.

Pois bem, diversas coisas estão ridiculamente erradas a começar por: Mesmo que a reorientação sexual só fosse praticada com o consentimento do paciente, essa liminar propõe que a homossexualidade seja tratada como uma doença e é desprovida de ética e de humanidade. Já é sabido cientificamente que a homossexualidade é uma manifestação diversa e positiva da sexualidade natural do ser humano e não uma patologia. Inúmeros estudos já foram feitos, testados e comprovados por diversas entidades psicológicas como a Associação Americana de Psicologia, a Associação Americana de Psiquiatria e a Associação Nacional dos Trabalhadores Sociais, que no início do século XX chegaram a conclusão de que não havia nenhuma base empírica ou científica para comprovar que a homossexualidade deveria ser tratada como uma doença. Portanto é perceptível até para nós, leigos, que essa liminar não possui nenhuma base científica.

Igualmente equivocado é afirmar que a homossexualidade causa transtornos emocionais. O que causa mais depressão, ansiedade e suicídios? Ser homossexual ou sofrer com a homofobia? Amar pessoas do mesmo sexo ou correr o risco de ser espancado até a morte enquanto sai de casa para comprar pão? Afirmar que a causa da depressão em pessoas homossexuais se dá exclusivamente pela sua sexualidade é completamente absurdo. Homens e mulheres sofrem todos os dias nas ruas, no trabalho, nas escolas e em suas próprias casas com a homofobia, com o preconceito e com o medo e nós vamos realmente fechar os olhos pra isso? Vamos simplesmente tapar nossos olhos com o véu da ignorância e afirmar que são pessoas doentes que precisam de cura? Enquanto o nosso país transborda com dinheiro roubado, violência, falta de educação e de saúde e simplesmente caminha com passos apressados ao abismo sombrio onde habita a corrupção nós vamos nos cegar voluntariamente e voltar toda a nossa indignação às pessoas que apenas – apenas – querem amar quem quiserem? Que apenas precisam de compreensão e respeito? Por que, em contrapartida, não procuramos a cura para a psicopatia, a sociopatia, a pedofilia, por exemplo?

Mesmo acreditando fielmente que essa liminar será derrubada rapidamente, acredito que é preciso deixar clara a nossa indignação. Proponho o seguinte: deveríamos instaurar uma terapia de reversão da homofobia, da violência e da intolerância. Quem sabe assim conseguiremos voltar a nossa atenção ao que realmente é importante, em vez de parar no tempo e correr em direção à decisões retrógradas e completamente absurdas para a “Era da tecnologia e do conhecimento avançado”.

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