09/09/2015 - Por Reflexões

Ser bonita não é o seu trabalho

Um dos meus poemas favoritos de todos os tempos é da Caitlyn Siehl, “Não é o seu trabalho”. É um poema curto, em inglês, que você pode ler aqui, mas eu traduzo aqui as partes mais importantes para o que eu quero discutir hoje: “você não tem que ser bonita se você não quiser. não é o seu trabalho”.

Quando falamos de beleza, geralmente focamos nossas campanhas em “todas as mulheres do mundo são bonitas” – é válido, claro, para tentar mostrar ao mundo que ser bonita não é algo limitado a “loira, magra, branca”. A ideia nessas campanhas é mostrar as mulheres que todas elas tem algo de lindo. Mas talvez essa não seja a melhor maneira de lidar com a ideia de beleza.

Claro que queremos que todas as pessoas se sintam confortáveis nos seus próprios corpos, que se sintam bem consigo mesma, e campanhas como essas servem principalmente para incluir mulheres que sempre foram excluídas dos ideais de beleza – negras, trans, gordas, etc. Mas li um texto essa semana que realmente ressonou comigo.

A autora afirma que, quando ficamos insistindo que todas as mulheres são lindas, estamos enfatizando a ideia de que, para mulheres, é extremamente importante ser fisicamente atraente – nossa aparência, nesse sentido, é grande parte do que nós somos. A autora diz que “nós esperamos beleza por parte das mulheres, e esperamos que elas queiram ser bonitas”.

Ser bonita não pode ser mais importante do que ser inteligente, poderosa, feliz. Mais, ser bonita não devia sequer ser importante. Deveria ser algo como um hobby apenas – da mesma maneira que tem pessoas que gostam de assistir fórmula 1, tem pessoas que são bonitas.

Temos que trabalhar a ideia de que não se sentir bonita ou não dar atenção a sua aparência não significa que tem algo de errado com você. A autora do texto coloca que “ao invés de viver em um mundo em que toda mulher luta para encontrar algo que ela considera atraente em si mesma, eu gostaria de viver em um onde mulheres sabem que não tem problema não ligar para a sua aparência”.

Segundo ela, nós não temos campanhas dizendo que todos os homens merecem se sentir bonitos – provavelmente porque raramente relacionamos o valor de um homem com sua aparência. Estamos cercados de homens “normais” ou até homens considerados feios, mas isso não é um tema central nas discussões masculinas.

Não falamos que “todos os homens são lindos”, mas compreendemos que existem homens que não considerados bonitos, mas tudo bem, porque essa característica não define nada sobre quem eles são (é importante notar aqui, porém, que homens tem ideais de beleza bem mais flexíveis – mulheres que não são modelos geralmente já são consideradas feias, homens que não são modelos são considerados “normais” ou até “bonitinhos”).

Claro que a beleza é algo socialmente construído e subjetivo, e é difícil definir o que realmente é bonito ou feio. Mas dizer para uma mulher que ela “merece” se sentir bonita acaba ajudando a reforçar a ideia de que ser bonita deveria ser algo importante para ela, e que ser considerada feia é algo que deve chateá-la.

Talvez, ao invés disso, deveríamos trabalhar coisas como: toda mulher merece ser respeitada, toda mulher merece se sentir confiante, toda mulher merece ser o que quiser. Enfatizo mais uma vez a frase do poema: “você não tem que ser bonita se você não quiser. não é o seu trabalho”.

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