01/03/2018 - Por Reflexões

A síndrome do príncipe encantado

Este texto foi enviado pela Bia, nossa colaboradora.

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Quando você nasce mulher, uma coisa muito interessante acontece na família. Você se torna a “princesinha do papai/titio/vovô”, e isso te acompanha durante a vida, sempre que você comete um erro ou se desvirtua das expectativas familiares que te rodeiam, as pessoas te lembram que é um absurdo tal erro/desvirtuamento, já que você é a princesinha da família.

Porém, isso que parece algo ingênuo pode comprometer todo o andamento da nossa vida.

Quando se nasce mulher, as pessoas nos protegem como se fossemos feitas de cristal, nada pode nos tocar, não podemos ralar os joelhos, não podemos passar por necessidades… Acredito que é por isso que dizem que a filha mulher é sempre a mimada. Claro que isso não acontece em todas as famílias, mas acontece em muitas delas.

Bem, por conta dessas coisas eu percebo um fenômeno muito intrigante que costumo chamar carinhosamente de “Síndrome do Príncipe Encantado”. Vem comigo.

Quando nós, moças, chegamos à idade onde a puberdade faz efeito e começamos perceber que nossos interesses românticos e sexuais são magicamente ativados, as pessoas ao nosso redor, a mídia consumida pela maioria das meninas nessa idade e nossos pais falam sobre o Príncipe Encantado: um homem que aparecerá na nossa vida num momento de desespero e nos salvará da prisão do castelo, tomando nossa mão em casamento. Normalmente esse Príncipe Encantado tem um rosto angelical, um físico impressionante, e cavalgará em um cavalo branco e nos resgatará de qualquer aflição, ele sempre proporcionará uma convivência impecável. E por fim, devemos nos manter puras para quando esse dia chegar.

Mas ninguém avisa que quando crescermos, o Príncipe Encantado nem sempre é como falaram que ele deveria ser: às vezes o Príncipe tem olheiras, tem o cabelo meio oleoso, fala meio esquisito e gosta de umas músicas entranhas. Ninguém conta pra gente que o Príncipe também fica irritado com o trabalho, que de vez em quando ele vai ficar doente e expelir catarro. Às vezes o Príncipe é uma Princesa e ninguém nos avisa que isso pode acontecer e quando ele/ela chega, a gente duvida se é isso mesmo.

“Ué! Me prometeram um cavaleiro dourado e apareceu um cara cheio de espinhas!”

 “Me falaram que seria um homem vestido de branco e apareceu uma mulher com o cabelo estranho!”

Pois é… A gente costuma achar que a felicidade, o amor, a realização tem um formato premeditado e meticulosamente calculado pra trazer a perfeição na nossa vida, mas isso é a maior sacanagem que fazem a gente acreditar. E é aí que a gente aplica o princípio do Príncipe Encantado.

A gente faz a faculdade que dizem trazer realização, compramos as coisas que dizem trazer felicidade, compramos uma casa num lugar que dizem trazer segurança, começamos a namorar porque disseram que trás amor… E nisso vamos afogando nossos sentidos em felicidades que não se encaixam em nós, em realizações que não nos completam, em pessoas que não nos trazem amor, em objetos que não nos fazem felizes… Simplesmente porque um dia nos disseram que ficaria tudo bem.

Não fica, porque nada no mundo nos trará uma felicidade perfeita: um relacionamento inclui discordâncias (e pode ser tóxico também), um objeto fica obsoleto com o tempo, uma faculdade pode te arrumar um emprego que te trará decepções e às vezes parece que não sabemos lidar com elas, não aguentamos saber que existe alguém no mundo que é mais feliz, mais realizado, mais rico… É uma busca vazia por uma perfeição inalcançável, já que quando chegarmos no “nível” de felicidade de outra pessoa, logo encontramos outra mais feliz e assim por diante.

A gente ainda não aprendeu a lidar com expectativas, decepções, ainda não sabemos aceitar que a nossa felicidade é única, vem de dentro de cada um e tem um formato diferente pra cada pessoa.

A minha felicidade tem cheiro de maresia, tem cor de Hortênsias, tem gosto de bolo de fubá com goiabada e às vezes comete uns erros.

E a sua felicidade? Como ela é?

 

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