24/02/2015 - Por Reflexões

Sobre os cabelos crespos

Está se conformando a alguns poucos anos, um amplo movimento em pró da valorização dos cabelos crespos naturais através dos meios de comunicação da internet e principalmente pelos encontros de crespas em vários estados do país.

Mas o que isso representa do ponto de vista político? Essa resposta poderia e deveria ser bastante clara para todos e todas, mas infelizmente, certas resistências em reconhecer (ou seria de aceitar?) o espaço que nós mulheres negras temos tomado em decorrência destes movimentos, faremos o esforço de nos colocarmos nesta questão. E, vale-se lembrar, nos colocaremos legitimamente, uma vez que este lugar de fala nos pertence, é nosso porque somos as mulheres que estamos nessa situação de opressão sobre os nossos cabelos, e que movimentamos as ruas e os espaços outros que ocupamos para dar visibilidade a isso.

Os espaços de mulheres são importantes porque primeiramente criam ou tentam criar um ambiente íntimo para que mulheres sintam confiança em desabafar seus relatos e se sentirem acolhidas; porque mostram a nossa capacidade de auto organização que nega a suposta dependência que temos de homens, e neste caso, organiza mulheres em torno de uma pauta política específica que diz respeito prioritariamente as mulheres negras, que não são donas exclusivas, mas majoritárias dos cabelos crespos.

Os encontros têm servido para percebermos que para além de razões estéticas, existe um sentimento comum que move a “transição” – a passagem do cabelo alisado para o cabelo natural -, sentimento este que pode orientar a vida de mulheres para que elas percebam quais outras amarras estão as prendendo, quais outras obrigações fúteis estão lhes tirando tempo de vida, a quem agrada essas supostas obrigações, e a quem elas respondem.

Os encontros de crespas são encontros de mulheres em busca de novas referências, de novos desenhos do belo, de novos conceitos de valores do que é admirável. Esses encontros são construções de uma nova auto estima, e auto estima o que significa além de auto percepção e aceitação do seu próprio corpo?

Do ponto de vista da eficácia política portanto, estes espaços de encontro são espaços em que se conformam grupos de mulheres dispostas a disputar o poder, o poder do tema dos noticiários, das revistas de estética, dos objetos de estudo da ciência, dos direitos políticos e do respeito na vida do dia a dia.

Nós mulheres, nascemos com uma série de imposições sociais absurdas, que começam desde nossa dor com a orelha furada já na maternidade, e para nós mulheres negras cuja feminilidade é negada porque somos vistas como trabalhadoras que aguentam trabalhos pesados – e trabalhos pesados são os que desenvolvemos até hoje, ao contrário da fragilidade feminina, que de universalmente feminina não tem nada, já que diz respeito apenas às mulheres brancas, – temos nossa beleza completamente rejeitada.

O movimento portanto, pela valorização do cabelo crespo deve proporcionar espaços de encontro com muita troca de amor, de elogios sinceros e de elevação da auto estima, porque além da “consciência negra” que nos orienta a assumir nossa identidade e fazer do nosso corpo uma barricada, precisamos nos sentir felizes e belas, e por isso esses espaços são espaços de construção de auto estima.

Politicamente ele fortalece o nosso emocional, contribui para o empoderamento individual e coletivo do nosso grupo de mulheres, que cada vez mais juntas caminham pela nossa emancipação, nossa bandeira é a liberdade.

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