13/08/2015 - Por Reflexões

Tati Bernardi, o politicamente correto, sexo e álcool gel

Esse assunto volta e meia surge de novo em nossas vidas – seja em conversas diárias ou em entrevistas com famosos, inevitavelmente alguém dirá “a sociedade está muito chata, existe um exagero da politicamente correto”.

O mais fascinante disso é a maneira como essas palavras são ditas, um certo desprezo em cada sílaba. Como se ser politicamente correto fosse um xingamento em si, como se ser “chato” fosse uma das piores coisas que possamos ser. É um “feminismo excessivo”, eu escuto direto. “Você é um tipo certo de feminista. Tem gente que exagera”, costumam dizer e logo calam a boca depois de ver minha cara de desprezo.

A ideia aí é que certas coisas que tem que ser levada na brincadeira. Que é preciso ter senso de humor e entender a intenção por trás das palavras, ou que tem áreas da vida que “não precisamos discutir essas coisas”. Sobre intenção, o inferno está cheio delas, e já cansamos de falar como o humor pode ser danoso.

Quanto a “assuntos proibidos”, Tati Bernardi fala de sexo, que isso é coisa entre quatro paredes, que não “não dá pra ter essa postura”. Como se nossas vidas sexuais existissem num vácuo e não fossem afetadas pelo sexismo, e que essas coisas não precisassem ser discutidas. Você gosta de levar tapa durante o sexo? Ótimo, bom pra você – mas ninguém é mais ou menos feminista se não gostar. E é preciso ter comunicação sempre, com quem você está transando e consigo mesma – por que eu gosto disso? E por que a pessoa com quem eu estou transando gosta disso?

Quando vemos textos sobre as fantasias sexuais mais populares, volta e meia aparece estupro na lista. Isso jamais quer dizer que mulher gosta de ser estuprada, mas, se esse é um fetiche que você tem, é importante pensar porque – tem relação com a repressão da sexualidade feminina? Se fazer sexo é coisa de puta, talvez, em algum lugar dentro de você, você se sinta mais livre para aproveitar se estiver “sendo forçada”. Ou não, é outra questão. Não sou eu que vou responder, mas a pergunta precisa ser feita.

A discussão é importante e vale a pena. Todo mundo tem o direito de gostar do que quiser, mas temos também a obrigação de entender porque temos esses gostos e de onde eles vieram. E vamos discutir, vamos encher o saco, vamos enfiar politicamente correto em todo canto da sociedade. Só assim vamos chegar em algum lugar, e não só jogar umas gotinhas de feminismo básico (branco, hétero, cis, provavelmente) por cima da sociedade. Como uma diz, isso é feminismo de farmácia, que só cuida dos sintomas principais e não dos problemas.

Sobre a questão que isso é “odiar homens, repúdio ao sexo”, etc, etc, nem acho que vale muito comentar – defendo que falamos demais no feminismo sobre homens. Se você odeia ou não, não me importo, nem acho que é um problema se você odiar. Só vou deixar aqui, então, uma das minhas citações favoritas, traduzida de um comentário da internet.

“Meu feminismo não tem nada a ver com homens. Não é definido como “igualdade para todos os gêneros”. Não é nem sobre igualdade. Eu não quero ser igual aos homens porque eu não gosto nem quero o patriarcado que os homens tem. Meu feminismo é sobre a liberação para as mulheres, e o fim da opressão delas, incluindo mulheres não-brancas, imigrantes , lésbicas, mulheres trans. É sobre equidade – fazer o necessário para garantir que todas tenham um mínimo de qualidade de vida, que tenham seus direitos humanos respeitados, e que estejam livres de opressão. Eu não gosto de definições de feminismo que tem como objetivo fazer o feminismo parecer não-ameaçador para os homens. Ele é ameaçador para eles, e deveria ser”.

 

Então, não, eu não quero jogar álcool gel na sociedade – não quero esterilizar, e deixar ela com cara de limpinha. O que eu realmente quero é derrubar tudo e construir algo melhor em cima.

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