16/05/2014 - Por Reflexões

Não foi elogio

Hoje me agrediram na rua. Não foi em uma ruela estreita em algum bairro de reputação condenável. Foi em Londres, as vinte e três horas, em um Piccadilly Circus tão abarrotado de carros e pedestres que a locomoção se tornava um transtorno. Um grupo de três homens beirando seus trinta anos sentavam no banco de trás de uma daquelas bicicletas-taxis que rondam a cidade. O condutor pedalava, tentando se esgueirar entre os carros, enquanto os três atrás o reclamavam em altos decibéis da lentidão com que o veículo estava se locomovendo.

Por um segundo observei um pouco incrédula a cena do condutor se esforçando para puxar três homens adultos com a força da sua pedalada regido pelo deboche grosseiro de seus passageiros. Nesse momento, o pequeno salto da minha bota, a falha na calçada e minha ligeira descoordenação motora se somaram para ocasionar aquela típica virada de pé acompanhada de um tropeço desajeitado. E, foi nesse instante, que, para eles, eu me destaquei na multidão.

Os três riram alto, disseram coisas que não compreendi e por fim um deles berrou a ponto de se fazer ouvir em meio ao tumulto acústico da cidade: “We would love to fuck you in the arse” [nós gostaríamos de comer o seu cu]. As pessoas olharam para trás e, em um piscar de olhos, eu deixei de ser anônima. Vi a expressão de escárnio do motorista de táxi, o riso dos garotos no carro conversível, o olhar das duas meninas que esperavam na faixa e me estudaram dos pés a cabeça. Naquele momento, senti-me menor e estrangeira num local que deveria ser público.

Sei que muitas pessoas diriam que eu devia estar “provocando” com roupas abaixo do padrão considerável aceitável para patrulha da moral e dos bons costumes. Por isso vou explicitar que estamos no outono e a temperatura lá fora está por volta de 6 graus Celsius. Estava de meia calça, bota e um sobretudo que me alcança os joelhos. Mas mesmo se eu estivesse de mini saia, NADA justificaria que alguém se sentisse no direito de me berrar obscenidades como se eu estivesse ali para o seu bel prazer. Isso não é um elogio. Não me fez sentir mais bonita ou amada porque alguém gritou que queria ter relações sexuais com meu ânus. Fez com que eu me sentisse impotente, ridicularizada e só.

Eu parei. Respirei fundo e disse: “You should fuck each other if you want an asshole so badly” [vocês deveriam fuder um ao outro se queriam tanto um cu]. Eles me olharam incrédulos, os risos cessaram, o condutor parou de pedalar e eu continuei andando. Não quis que minha frase soasse homofóbica. Se eu quisesse ofendê-los e os chamasse de gays eu estaria trocando uma agressão sexista por outra. Minha intenção foi brincar com o duplo sentido da palavra “asshole” na língua inglesa (que pode remeter tanto ao lugar onde o sol não bate quanto a alguém babaca). Eu caminhei com os punhos cerrados, mandíbula travada um gosto amargo escalando o céu da boca. Uma mulher passou por mim bateu em meu ombro e disse: “Sista you are my hero” [irmã, você é minha heroína]. Ela me deu uma piscadela antes de seguir seu caminho. Não tive tempo de responder. Fiquei ali tentando juntar as peças do que sentia.

Acontece que eu não quero mais me calar perante a isso, porque nós temos direito à resposta. A cada episódio desse tipo do qual eu acabo ouvindo falar, cresce um pouco mais essa inconformidade nas minhas entranhas, sinto que não posso mais controlar essa criatura que emerge de meu corpo. Ela se manifesta pela minha voz, pelo meu olhar, minha postura e meus punhos cerrados. Cada célula, cada proteína do meu corpo pede uma revolução. Porque é disso que precisamos agora. De uma revolução para arrebentar as estruturas do que é considerado “ok”. Não é ok, eu não vou ficar ok com isso e espero que comecem a considerar o quão ok esse absurdo intragável realmente não é.

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