19/05/2014 - Por Reflexões

va.di.a

vadio

Eram seis da manhã quando acordei num salto, ao ouvir o som estridente do alarme-relógio. Levantei daquela estreita cama de solteiro e comecei a caçar minhas peças de roupa pelo chão. Rapidamente me vesti, com um sentimento que não consegui distinguir entre pressa, medo e culpa. Voltei a olhar para a cama, ele parecia não ter ouvido o som do relógio. Achei irônica a sensação de serenidade com a qual ele parecia dormir, quando comparada ao sentimento de derrota e vergonha que me devastava por dentro. Eu havia cedido aos meus desejos e isso nunca fora permitido. Quebrei minhas próprias regras e eu só me sentia perdida. E errada.

Meu coração doeu um pouco quando meu superego ordenou que eu fosse embora. Mesmo que eu não quisesse, a voz imperativa de minha mente insistia em me fazer deixar aquele rapaz e aquela história para trás. Tudo havia sido um erro e essa seria uma boa maneira de começar a repará-lo. Deixando meus desejos e lembranças em algum canto daquele quarto. Fui embora, como se nada houvesse acontecido.

Lembro muito nitidamente das reações que as pessoas próximas a mim tiveram quando narrei o acontecido. O primeiro impulso foi o choque. O segundo, os questionamentos. E o último, o conforto. Poucos me repreenderam e isso me fez sentir melhor. Os que repreenderam não me disseram coisa alguma. O silêncio foi a forma mais fria de julgamento pelo qual passei naquela situação. Talvez seja porque, dessa forma, eu mesma era responsável por preencher as lacunas daqueles diálogos com meus próprios julgamentos.

Também lembro das reações que tiveram quando ele contou. Seus amigos o rodearam e murmuraram alguma coisa, entre risadas, cujo conteúdo eu desconfiava saber. Ele respondeu aos murmúrios e os amigos o aplaudiram. Alguns deram tapinhas nas costas. Assim, eu me tornei um troféu.

Quando cheguei em casa, sentei em minha cama e chorei. Chorei, porque eu não sabia o que estava acontecendo, nem o que sentia. “Será que eu sou uma vadia? Eu sou uma vadia!”. O que mais eu poderia pensar que eu era, quando essa era a única palavra que eu havia aprendido para descrever o comportamento de uma mulher que transa com quem ela quer? Que outra maneira uma mulher sexualmente livre poderia ser chamada? Foi aí que comecei a pensar sobre essa palavra e seu significado.

va.di.o

(latim *vagativus, vagabundo)

adjetivo e substantivo masculino

Que ou aquele que não tem ocupação ou que não faz nada, que não gosta de trabalhar. = OCIOSO, TUNANTE, VAGABUNDO, MALANDRO

 

va.di.a

(latim *vagativus, vagabunda)

adjetivo e substantivo feminino

Que ou aquela que não se dá ao respeito, que transa com muitos homens, que usa trajes inadequados. = PUTA, VAGABUNDA, BISCATE, PIRANHA, GALINHA, FÁCIL, RODADA.  

 

Repare a nítida diferença entre as descrições. Eu percebi como essa palavra servia para milhares de situações nas quais a mulher decide fazer o que tem vontade. Ela é vadia, porque quer dar. Ela é vadia, porque não quer. Ela é vadia, porque se arruma muito. E também é quando não. Ela é vadia, por não querer ter filhos, ou por se dedicar muito ao trabalho. Ela é vadia, porque bebe demais. Porque dança demais. Porque veste de menos. Ela é vadia a priori e que os convença do contrário. Porque a mulher, para ser respeitada, precisa se dar respeito. Imagina se ele vai ser dado assim, de graça, pra uma qualquer? Não. Ela tem que fazer por merecer. Tem que se esconder, não sentir, não ser ela mesma. Ela tem que se controlar.

Aquela havia sido a primeira vez que eu me envolvia com uma cara que eu não amava. Não era como se eu fizesse muitos planos a partir daquele momento. Eu só queria estar ali e, bem, eu estava. Não o amava ou queria me casar com ele. Era só tesão. Era só aquele momento e eu tava bem com isso. Não desrespeitei a ele ou a mim mesma por ser só isso. Aliás, acho que nunca me respeitei tanto. Aprendia que fazer o que se quer, é começar a amar a si mesmo de forma profunda e verdadeira.

Sou vadia, sou livre. Agora, quase que tanto faz. Pra mim, é tudo a mesma coisa. “Ser vadia é ser livre. Fazer o que eu quiser, sem dar explicação a ninguém, sem perguntar “Será que posso? Será que devo? Será que vou?”. Não! Não! É vadiar em forma de felicidade!” – POPOZUDA, Valeska, 2014. Porque, assim como a pensadora Valeska Popozuda, eu me apropriei desse xingamento e me libertei. Voei.

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